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'É fundamental saber sair de cena', diz Luiza Brunet

Aos 50 anos, e em ótima forma, ela fala sobre a autobiografia que está escrevendo, qualidade de vida, menopausa e causas sociais

Sofia Patsch, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2013 | 02h07

Luiza Brunet não quer mais ser chamada de modelo. Aos 50 anos, a diva continua sendo exemplo de beleza e boa forma, mas diz que suas preocupações mudaram. Hoje, só pensa em qualidade de vida e tranquilidade.

Desde os tempos de Itaporã, no interior do Mato Grosso do Sul, muita coisa mudou na vida desta mulher - que se tornou marca registrada de beleza e ícone do carnaval. Tanto que, a convite da editora Sextante, começou a escrever (com ajuda da jornalista e amiga Laura Malin) suas memórias, ainda sem previsão de lançamento. Confessa à coluna que chorou após ler o primeiro capítulo. O livro abordará a infância humilde, os tempos de modelo e trará curiosidades sobre sua vida.

Relembrar o passado tem sido uma bênção, já que, segundo ela, "não está sendo fácil passar pela menopausa".

Exagero da musa. Entre um convite e outro para desfilar, finalizou um guia de beleza e bem estar, com dicas garimpadas em três décadas de carreira; continua engajada em causas sociais, como o combate ao câncer de mama; e ainda encontra tempo para tocar os negócios. "Vem um novo perfume por aí", avisa.

A seguir, os melhores trechos da conversa.

Você teve uma infância humilde. O que foi mais marcante nesse período?

Luiza Brunet - O contato com a natureza. Eu morava no interior, era um lugar em que não tinha muita opção de brincadeira, a não ser subir em árvores. Esse tempo me marcou tanto, que me inspirou a escrever uma biografia.

E o que pretende contar no livro?

Luiza Brunet - Ainda está no começo, a editora Sextante me convidou e eu aceitei. Chamei a Laura Malin, jornalista de minha confiança, para escrever e estamos nos primeiros capítulos. Confesso que, depois de ler as primeiras linhas - sobre a infância -, chorei.

E vai abordar algum tema mais polêmico?

Luiza Brunet - Minha vida é um livro aberto, mas revelarei alguns segredos. 

Antes da fama, você trabalhou como empregada doméstica e empacotadora. Como foi?

Luiza Brunet - Esses trabalhos me fizeram experimentar os dois lados da vida. Saí do interior, fui morar no subúrbio do Rio e comecei a trabalhar super cedo. Primeiro, como babá e empregada doméstica; depois, como empacotadora. Essa transformação de imagem me fez crescer e dar valor às pessoas que têm poucas possibilidades na vida. Foi grandioso, não tenho vergonha nenhuma. Sei fazer tudo na minha casa: organizo, faço comida, arrumo armários. Acabei virando uma excelente dona de casa.

Por que ainda usa o sobrenome de seu primeiro marido, Gumercindo Brunet?

Luiza Brunet - Quando iniciei a carreira de modelo, eu era Luiza Botelho. Alguém abreviou para Luiza B. Brunet; depois, virou Luiza Brunet. Quando fui trabalhar em Paris, virei a Luiza Morena - porque brunette, em francês, é morena. Quando me separei, mantive o sobrenome, que acho super charmoso. Meu ex-marido não tem problema nenhum com isso.

Sofreu assédio durante a carreira? Como lidou com isso?

Luiza Brunet - Fui muito mais assediada quando trabalhava como empacotadora do que quando era modelo. Naquela época, nem sabia o que era assédio sexual, ficava chateada, me aborrecia e trocava de emprego, até que acontecia novamente. Mas nunca chegou a ser algo agressivo ou obsceno. Isso acontece até hoje. Claro que há mais esclarecimento. Por um lado, me fez amadurecer, ficar mais esperta. Hoje em dia, sou muito mais criteriosa nas relações. Tudo o que aconteceu na minha vida foi válido - até isso.

Você é engajada em campanhas sociais. O que anda fazendo ultimamente?

Luiza Brunet - Sou embaixadora do Instituto Avon. Hoje mesmo estava em Goiânia, divulgando o quanto é importante a prevenção do câncer de mama. Ainda existe muito preconceito. Muitas mulheres ainda têm vergonha de fazer o autoexame, e os maridos não as deixam ir ao ginecologista por ciúme. É absurdo o número de mulheres que ainda morrem por causa da doença, por não irem ao médico e fazer a mamografia. Meu papel é orientar.

Como mantém a boa forma?

Luiza Brunet - A genética ajuda. Também comia alimentos saudáveis na infância, sem fast food. Não tomo refrigerante e tento comer bem. Acho a saúde muito importante, mas envelhecer e poder usar um jeans sem ficar com vergonha é muito bom. (risos)

Você pratica esportes?

Luiza Brunet - Sempre fiz exercícios físicos. Já passei por todas as modalidades - aeróbica, musculação, corrida na praia, ginástica em grupo. Atualmente, faço musculação duas vezes por semana com um personal trainer - muito pouquinho, porque não gosto de "mulher perereca" (com os músculos excessivamente definidos, explica). E Pilates, que trabalha contração e alongamento, que é o que eu busco hoje para o meu corpo. Não quero emagrecer mais, voltar a ser modelo e vestir 38. Não é isso que busco hoje em dia. Quero qualidade de vida, tranquilidade e um grande amor. Tem de saber envelhecer e aceitar que o corpo muda, principalmente no estágio em que estou agora, a menopausa.

E como é, para você, estar na menopausa?

Luiza Brunet - Nenhuma mulher leva essa fase numa boa. Você tem de se cuidar muito mais, é incômodo. Falo para os homens serem gentis com suas mulheres na TPM, pré-menopausa e menopausa. Às vezes, os meninos não entendem essas coisas. Mas, se você se cuida e mantém uma saúde legal, o processo se torna mais ameno.

É vaidosa?

Luiza Brunet - Sou super vaidosa. Acho que vaidade tem tudo a ver com autoestima. Estar com o cabelo legal, usar uma roupa legal, se olhar no espelho e se achar bonita... Tudo isso faz bem para a saúde e reflete no trabalho, na família, em tudo na vida.

Já fez alguma plástica?

Luiza Brunet - Quando era moda, coloquei bastante silicone nos seios. Depois, diminuí. E pretendo diminuir cada vez mais. Quando você está madura, quanto maior o peito, mais pesado fica. Mulher, quando fica mais velha, tem de encurtar o cabelo e ter seios pequenos. Essa é a minha receita.

Você tem vitiligo. Como lida com a doença?

Luiza Brunet - Tenho nas duas mãos, nos dois cotovelos, nos dois joelhos e nos dois pés. O vitiligo apareceu quando eu tinha 2 anos. Como morávamos no interior, minha mãe não tinha a consciência de que era uma doença relativamente grave. O tratamento é complicado, pois é uma doença de fundo emocional. E na carreira de modelo, claro, eu mostrava muito o corpo. Quando comecei, não existia Photoshop - dava para camuflar um pouco com maquiagem. O fato é que é preciso aprender a conviver. O ser humano não é perfeito. A gente sempre acha que o outro é melhor, mais bonito, mas a verdade é que todo mundo tem imperfeições.

Pode-se dizer que envelhecer é um grande problema?

Luiza Brunet - Acho que é inevitável. Não tive crise dos 30, dos 40 nem dos 50. Sinto-me muito bem, em plena forma para cuidar dos meus filhos, netos e, quem sabe, até de um cachorro. A vida é feita de momentos e fases, temos de viver a beleza de cada época. O segredo é estar em paz consigo mesma. Só aí dá para encontrar o equilíbrio.

De modelo a empresária bem sucedida. Você sempre teve tino para os negócios?

Luiza Brunet - Sempre fui curiosa e didática. Mantenho uma parceria de longa data com a Avon. Meu perfume é a fragrância nacional mais vendida no mercado. E, em março, vou lançar uma nova. Além das campanhas de beleza para mulheres realizadas e maduras. Comecei a trabalhar como modelo aos 17 anos. Acho uma vergonha falar que sou modelo até hoje, mas ainda trabalho com a imagem. Creio que consegui fazer a diferença e ser um exemplo para as mulheres.

Você já declarou ter sofrido com a separação. Superou?

Luiza Brunet - É difícil a separação para uma mulher de 45 anos. Fui casada por 25 anos (com o empresário Armando Fernandez). Passei a maior parte da vida ao lado de um homem por quem fui extremamente apaixonada e com quem tive dois filhos. Mas casamento é isso: você nunca entende como acaba - ou melhor, quando começa a acabar. Agora estou em um relacionamento novo (namora o bilionário Lírio Parisotto) e super feliz.

Vai se casar de novo?

Luiza Brunet - Não, namorar é muito bom, nunca tinha namorado. (risos)

O que acha de sua filha ter seguido a carreira de modelo?

Luiza Brunet - Bárbaro. Ela foi amamentada em um estúdio de fotografia. Com 12 anos, foi convidada para desfilar no SPFW. Quando entrou na passarela, fiquei muito emocionada. Ela tem passo forte, olhar firme, nasceu para isso. Foi morar em NY com 17 anos - aqui, é a filha da Luiza Brunet; lá, é Yasmin Brunet. Ela é linda, tem potencial, mas acho que está mais para a área social do que para modelar.

Por quê?

Luiza Brunet - Ela é engajada em movimentos sociais, tem uma preocupação humanitária enorme. Acho muito legal.

O que pensa sobre a magreza excessiva das modelos?

Luiza Brunet - Acho que a moda levou essa exigência para as modelos. A moda é muito criativa, mas, ao mesmo tempo, pouco "usável", porque só cai bem em gente muito magra - o que dá a falsa impressão de que as mulheres têm de chegar nesse padrão de beleza para serem bonitas e desejadas. Muitas meninas que aceitam esse ideal de beleza ficam doentes. É um lado da moda que não acho legal.

Prefere os corpos das rainhas de bateria?

Luiza Brunet - Não. Acho que a mulher tem de ser feminina. Salvando a Sabrina Sato, que é gostosa, não me agrada mulher com corpo de perereca.

O que mudou desde a época em que começou a desfilar?

Luiza Brunet - Primeiro, o carnaval, que está maravilhoso. A qualidade - tanto no Rio quanto em São Paulo - melhorou, há uma safra de novos talentos. Participei durante 29 anos e, este ano, pendurei as chuteiras. Fiz parte desse crescimento, do qual me orgulho muito. Amo o carnaval.

A Cris Viana te substituiu na Imperatriz Leopoldinense. Você não vai mais desfilar?

Luiza Brunet - Já cumpri minha parte como madrinha de bateria, é legal saber a hora de sair. A Cris é linda. Este ano, as madrinhas de bateria estão bem bacanas, tem muita mulata, mulheres que têm o perfil do samba. Agora, só vou assistir.

Sairia num carro alegórico?

Luiza Brunet - Como gosto muito de carnaval, quem sabe no ano que vem eu saia em um carro ou uma ala. Vou estar sempre por ali, mas não mais como madrinha de bateria.

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