E foram todos para Paris

A certa altura de Meia Noite em Paris, o novo filme de Woody Allen, um escritor interpretado por Owen Wilson vê-se arrastado misteriosamente no tempo até os anos 1920, caindo numa soirée animada por Gertrude Stein, F. Scott Fitzgerald, Hemingway, Picasso & cia. Não diria que esta seja uma fantasia de todos os artistas e intelectuais que conheço, pessoalmente e a distância, mas não me surpreenderia se ao menos dois terços deles apontassem a fervilhante Paris dos anos 20 como o mais sedutor dos mundos desde que o mundo é mundo. Os demais? Escolheriam, suspeito, a Paris dos anos 40, quando ela ainda era uma festa e - dado fundamental - já existia a penicilina.

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 00h00

"Foram verões e mais verões de diversão e ócio", registrou Fitzgerald, referindo-se, claro, aos anos 20 (o escritor morreu em 1940). "A gente levava uma vida meio tola e sem sentido, mas eu sinto falta dela até hoje", confessou o crítico cultural Harold Stearns, pouco antes de morrer, em 1943. Outro expatriado, o compositor Virgil Thomson, desvaneceu-se: "Até os guardas respeitavam a gente". Samuel Putman, um dos primeiros a documentar em livro as melhores lembranças daquele tempo, sintetizou o rabicho em quatro palavras: "Paris foi a nossa amante". Amante, sobretudo, dos americanos.

Atraídos pelo generoso câmbio de 25 francos o dólar promovido pela 1.ª Guerra Mundial e pela efervescência cultural aditivada pelo cubismo, o dadaísmo e o surrealismo, alguns dos cérebros mais privilegiados da América foram viver a grande aventura parisiense convictos de que era mais fácil, e sobremodo mais chique, ser duro na capital francesa do que em casa. E a bebida, além de livremente vendida (a Lei Seca nos EUA durou de 1919 a 1933), era farta e deixava no chinelo a birita que os americanos destilavam clandestinamente no fundo do quintal. Quem foi não se arrependeu, au contraire. Daí a mística, continuamente realimentada por relatos autobiográficos, romances, poemas, e filmes como Sinfonia de Paris, Moderns, e a nova comédia de Woody Allen.

Paris É Uma Festa, as póstumas reminiscências parisienses de Hemingway, foi apenas a cereja de um bolo que não para de crescer, sem contudo saciar nossa voraz curiosidade. Perdi a conta de quantos livros já comprei sobre a "moveable feast" e a romaria que a antecedeu, no século 19 (Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Fenimore Cooper, Henry James, etc.), e em breve teria de abrir espaço na estante para mais um - The Greater Journey: Americans in Paris, de David McCullough, recém-editado pela Simon & Schuster -, se já não o tivesse adquirido em versão digital. Aquelas duas Paris só existem hoje na memória, em especial na memória viva das ruas, nos prédios, hotéis, livrarias, quiosques, bares, cafés, bistrôs e jardins onde os ilustres "expatriés" deixaram suas marcas.

Há 22 anos, cismei de percorrer e fotografar o maior número possível de lugares habitados, frequentados e celebrizados pela Geração Perdida; levantei endereços, montei mapas e roteiros, e fui à luta, com a minha Canon e um caderno de notas. Nunca uma reportagem me deu tanto prazer. Rendeu um caderno de Turismo inteiro da Folha de S. Paulo; daria um livro. Com um pouco de boa vontade e certo preparo físico, é possível perfazer o tour em três dias, dividindo-o em seis etapas, começando, sagesse oblige, pela Rive Gauche. A maior concentração de pontos históricos fica entre o Boulevard Saint-Michel e Montparnasse.

Só no Boulevard Saint-Germain fotografei quase 20 "santuários". Hospedado num hotel da Rua Cardinal-Lemoîne, quase ao lado da mais conhecida morada de Hemingway em Paris, pude iniciar a peregrinação pelas pegadas de seu mais exuberante personagem. Com três endereços em nove anos de vida parisiense, Hemingway, sozinho, daria um tour à parte.

Vários lugares por onde ele circulou desapareceram (a livraria Shakespeare & Co. original, o Vélodrome d"Hiver, no Boulevard de Grenelle), outros mudaram de nome: o bistrô L"Escorailles (na Saint-Pères, palco daquele papo desagradável sobre dimensões penianas entre Hemingway e Fitzgerald) virou a brasserie Michaud"s. Mas a maioria sobreviveu: Deux Magots, Flore, Lipp, Le Sélect, Dôme, La Rotonde, La Coupole, La Closerie des Lilas. Assim como o legendário apartamento de Gertrude Stein e Alice B. Toklas, no n.º 27 da Rue de Fleurus, fulcro de toda a sarabanda. Foi ali que Leo Stein, irmão de Gertrude, sentou praça em 1903 e comprou seu primeiro Cézanne. No fim da década, sua irmã, futura abelha-rainha dos artistas da Rive Gauche, já possuía a maior pinacoteca modernista da cidade.

Com menos de um ano de antecedência, dificilmente se consegue uma vaga no quarto 14 do Hôtel d"Angleterre, na Rue Jacob. Entre aquelas paredes dormiram Washington Irving (1805) e Sherwood Anderson (1921), de quem Hemingway herdou o módico aluguel. Ali perto, na esquina com a Rue Bonaparte, ainda existe um dos bares, Le Pré aux Clercs, no qual o escritor e a mulher, Hadley, volta e meia almoçavam. Mais adiante, nas cercanias do Jardim de Luxemburgo, moraram Zelda e Scott, Ford Madox Ford, Aaron Copland, Thomas Eakins e o casal aglutinador George-Sarah Murphy.

Minha última foto, fechando a flanância pela Rive Droite (Cole Porter, Sinclair Lewis, Thomas Wolfe), foi diante do n.º 14 da Rue Tilsitt, em cujo quinto andar Zelda e Scott inauguraram sua interminável noite de loucuras, em 1925. Chovia e a foto quase não saiu. Não é todo dia que o sol se levanta em Paris.

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