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E esse tal de barroso...

Falador, Lobão passou metade da vida dizendo a jornalistas suas verdades e absurdos. No sábado passado, antes da entrevista ao Estado, ele deu outra, especialmente entusiasmado. O foco não era a biografia, mas um dos maiores amigos que já teve, Júlio Barroso, cuja curta trajetória (1954-1984) vai virar filme de ficção de Roberto Santucci (de Bellini e a esfinge). "Júlio era "o" cara, estava anos-luz na frente de todos. Tinha uma erudição profunda sobre música brasileira. Éramos vistos como bicha, maconheiro e roqueiro, ou seja, o cocô do cavalo do bandido e, sem ele, não conseguimos".

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2010 | 00h00

Lembrou episódios tão surrealistas que uma senhorinha que estava num sofá no lobby do hotel, por acaso perto de onde Lobão se sentava, ficou "encantada". "Quem é esse homem tão envolvente?", perguntava. Histórias como a da vez em que ele "roubou" a namorada de Júlio. A dor de corno foi curada com bebida e Roberto Carlos na vitrola. Quando se reviram, Júlio sugeriu uma "surubinha".

Já o desespero profundo que Lobão sentiu com a perda de Júlio ele expurgou junto com Cazuza, cheirando "lagartas de cocaína" sobre seu caixão - é o relato do prólogo do livro, o que dá a medida da reverberação dessa morte nos anos que se seguiram.

Nacionalmente conhecido com o festival MPB-Shell de 1981, o compositor de família rica, que queria "ficar velhinho fazendo música", como deixou registrado numa gravação, só lançou um LP, Essa Tal de Gang 90 & As Absurdettes, que começava com o superhit Nosso Louco Amor e tinha Perdidos na Selva e Telefone, tocados exaustivamente nas rádios e em programas de TV como o do Chacrinha. Quando se preparava para gravar o segundo, caiu do 11.º andar de seu prédio, em São Paulo. Como outros, Lobão assegura que não foi suicídio - não era a dele. "Minha gargalhada é a do Júlio. Tenho aflição enorme de ver o trabalho dele nesse lusco-fusco."

Daí a empolgação com a entrevista a Santucci e a Eduardo Poyares, o idealizador do projeto. Antes, eles estiveram com o poeta Bernardo Vilhena, parceiro de Lobão em Vida Bandida, Essa Noite, Não e Chorando no Campo. E com Ezequiel Neves, já perto da morte - acreditam ter gravado sua última entrevista.

"Cada uma é mais estimulante que a outra. Pelo que os amigos contam, era um cara engraçado, carismático, atípico mesmo", diz Santucci. O diretor ainda está descobrindo o Júlio dos amigos, para depois formatar o filme, que reproduzirá seu círculo afetivo. Trechos poderão aparecer como extras.

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