Marcos Arcoverde/AE
Marcos Arcoverde/AE

E Então É...Natal

Há 15 anos a versão de Happy Christmas - War Is Over trazia a Simone um [br]sucesso incomum. E críticas pesadas

Antonio Duarte ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

Simone não tem problemas com números. "Faço 61 anos na semana que vem. É uma boa safra de bordeaux", brinca, comparando-se ao vinho francês. Baiana nascida à 0h07 de 25 de dezembro de 1949, ela tem outras razões a brindar. Sua carreira chega aos 40 anos com um CD e DVD, Em Boa Companhia, já mostrados em shows em São Paulo. E há 15 anos, Simone lançava seu disco mais bem sucedido comercialmente, 25 de Dezembro, que incluía o hit Então é Natal, algo que a marcaria para o bem e para o mal. Na entrevista abaixo, Simone conta como aquele CD foi concebido e sua monstruosa repercussão."

Você compõe?

Fiz algumas músicas, mas só gravei duas. Uma minha com Hermínio Bello de Carvalho (Vale a pena Tentar), que é antiga, da época em que saiu Proposta. Estava viajando com Toquinho e ouvi esta canção, achei linda e fiz uma resposta a ela. Mostrei para o Hermínio e a deixei guardada por muito tempo. Eu só a redescobri enquanto tocava um pouco de violão - não toco mais violão, eu brinco.

E não toca mais por quê?

Eu usaria uma palavra pesada, mas é por idiotice, burrice. Porque eu deveria tocar. Não sei nota, melodia, mas sou uma pessoa muito musical. Estava ouvindo algumas músicas do repertório. Aí fiquei em dúvida se gravaria a música ou não, mostrei para o Nelson Ayres e ele começou a tocar de uma maneira com uma melodia bonita, é uma música reta, com começo meio e fim, música de amor.

Mas por que você diz "ainda bem" que só gravou duas composições suas?

Porque eu não sou compositora. Sou intérprete. Teria que estudar harmonia, apesar de que três acordes já é um espetáculo (risos). Quando você não sabe tocar um instrumento, você acaba vendo as melodias se repetindo. Acho que não é realmente a minha. Sou capaz de fazer um arranjo, como faço, com a boca. Compor tem que ser mais sério, mais doutrinado. É uma veia que se tem. E eu não tenho, tudo bem.

Você é considerada "uma intérprete romântica". Incomoda essa definição?

Nem um pouco, eu adoro. Eu sou uma pessoa romântica. É comum me chamarem de "cigarra", acho maravilhoso. Não acredito em ninguém que não seja. Pode não colocar para fora, mas não existe ninguém que não seja. Tem uma hora que vaza. Pode não assumir, achar brega, careta, o que for. Dê o rótulo que quiser, mas que é, é?

Mas acredita ter acentuado mais essa fase romântica em algum momento de sua carreira?

Pode ser até que tenha dias que eu esteja mais melosa - não sei se essa é a palavra correta - mas acredito nessa pulsação, nessa válvula. Isso renova a gente, sabe? Não deixa enferrujar, se acomodar. Tudo bem não ter paixão pulsando dentro de você 24 horas por dia, mas você tem amor motivando sua vida. Ele está aí. Por um vinho, uma comida ou pelo seu trabalho, ele está sempre aí. Você pode não saber o nome que dá a isso, mas é. Eu faço ginástica com tesão, tenho paixão por isso. Subo no palco, tomo um gole de vinho... Tenho prazer nessas coisas. Ou faço as coisas com prazer ou não faço.

Há 15 anos você lançava 25 de Dezembro, disco da faixa Então é Natal (versão de Happy Christmas - War is Over, de John Lennon). Como surgiu aquele disco de composições natalinas?

O 25 de Dezembro foi uma porrada dos dois lados. Foi um disco muito bem aceito pelo público e, ao mesmo tempo, algo que algumas pessoas acreditam que eu não deveria ter feito. Eu não concordo. A ideia quem teve fui eu. Uma vez eu estava nos Estados Unidos, em uma loja de discos, e vi uma bancada com vários álbuns de Natal de compositores como Frank Sinatra, Barbra Streisand, Ella Fitzgerald, Nat King Cole... Pensei, caraca: por que não gravo um disco de Natal? Nasci no dia 25 de dezembro, sempre ouvi músicas de Natal, sempre tive uma árvore de Natal. Foi tudo tão rápido, lastimo não ter feito a capa com uma foto minha ainda menina, de vestido rodado e cabelo liso, parecia de índio, ao lado de um pinheirinho safado, que era minha árvore de Natal. O peru, a castanha, tudo leva a uma coisa que o brasileiro faz, apesar de a data ser no verão, de não ter neve, de a comida ser o oposto do que a gente deveria comer... Mas existe uma hipocrisia que acho loucura. Por que não ouvir nossas músicas de Natal? E até hoje o disco vende muito, as pessoas ouvem, gostam. Na verdade, estourou uma música, Happy Christimas, e foi uma loucura. Acho que foi a primeira vez que a Yoko Ono cedeu uma versão dessa música. Tudo isso aconteceu em 15 dias.

Você sabe se a Yoko soube do sucesso da música?

Você sabe que eu não sei? Nunca me perguntei isso. Mas ela deve saber, porque vendeu muito disco. A primeira tiragem foi de 1 milhão. Fizemos o disco em 15 dias. Na verdade, nós fizemos o disco, tudo, em 25 dias. Por isso lastimo não ter usado minha foto na capa. Tinha terminado meu contrato com a Sony, e eu estava gravando uma música com o Sérgio Mendes em Nova York quando ele disse que queria conversar comigo. Ele era presidente da Polygram. Eu disse: sem advogados. Ele veio na minha casa, começamos a conversar, eu contei minha ideia e ele já saiu daqui ligando para Deus e todo mundo para fazer o levantamento das músicas. Ele teve a ideia de tentar uma autorização da Yoko.

Você esperava que fosse fazer tanto sucesso?

Não! Não dá para ter noção do que vai acontecer. Eu estourei pela primeira vez com uma canção que chama Jura Secreta... Ninguém sabe o que vai ou não ser sucesso. Acho que caiu na hora certa. Acho que era porque a música falava de uma coisa que o brasileiro curte muito, que é ter a ceia, uma noite importante para toda a família se reunir, no dia 24, em que todo mundo reavalia suas coisas. E de repente entra aquela bomba: "Então é Natal, o que você fez..." Caiu como uma luva em minha carreira, mas é claro que eu não sabia. Não tinha noção. Mas aconteceu, tanto que um monte de gente ficou com raiva. Brasileiro não pode fazer sucesso que já ficam com raiva, já diria Tom Jobim.

E você não acha que acabou ficando estigmatizada por causa dessa música?

Acho que não, mas tem gente que não gosta, acha babaquice. Eu não acho. Acho uma pena que esses babacas achem babaquice. Porque eles têm árvore, peru e bacalhau na casa deles, cantam e reúnem as famílias. Por que não ouvir música brasileira? Ora, que babaquice. É hipocrisia.

Você considera esse o seu maior sucesso?

Claro que não. Eu acho muito legal, não me incomoda nada. Não é nem uma questão de... Gosto do Natal, é uma data tão forte, tão familiar, que gosto dessa coisa.

Você passa o Natal em família?

Por ironia, não. Tenho parte da família em Salvador e outra parte em São Paulo, além de um irmão em São Paulo. Somos unidos, mas não somos reunidos. Passo junto com a família dos outros. No dia 25, que é meu aniversário, sempre tem comida e bebida aqui em casa. Quem quiser vir, vem.

Você já recebeu convite para tocar no dia 25?

Nunca recebi, mas já recebi muitos convites para fazer só shows de Natal, o que eu nunca topei fazer. Cantava e canto no final, a pedido das pessoas, elas sempre querem algo assim. Bem, se tivesse de fazer shows agora, não faria mesmo. Eu entrei de férias hoje.

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