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E do húmus vem a flor

Espetáculo inédito marca o lançamento da nova companhia do multiartista Antonio Nóbrega

HELENA KATZ - ESPECIAL PARA O ESTADO,

17 de maio de 2013 | 02h07

A estreia é hoje, às 21 h, no Auditório Ibirapuera, mas, na verdade, ele vem estreando desde o momento em que trouxe a dança para a sua carreira de músico. Toninho Nóbrega lança a sua companhia de 13 bailarinos com uma nova criação, Humus, que será apresentada em quatro espetáculos: sexta e sábado, às 21 h, e no domingo às 11 h e às 19 h. A assistência de direção artística é de Luciano Fagundes, os figurinos são assinados por Eveline Borges e a trilha sonora reúne Bach, Siba, Antônio José Madureira, Leonardo Gorosito, Spok, Chico Buarque, Edson Alves e José Alves Sobrinho.

São 40 anos de dedicação às mais variadas manifestações da cultura popular do Brasil, que ele foi tecendo com informações vindas de outras danças. Dessas misturas foram brotando Reino do Meio-Dia (1989), Figural (1990), Passo (2008), Naturalmente (2009), e agora, Humus (2013).

A companhia nasceu de uma seleção de 20 bailarinos, realizada há um ano e meio para o Brincante, longa que Walter Carvalho está agora finalizando. Eles ensaiaram cinco meses com Toninho e, desse convívio, 13 vieram compor a companhia.

Em entrevista ao Estado, ele conta a sua maior preocupação: "Foi um desafio muito grande porque mais do que a construção do espetáculo, o principal era como fazê-los acessar um material que tinha vindo da relação direta com os artistas populares e, para eles, éramos nós, que já temos esse material traduzido em nossos corpos, que passávamos a informação. Cada um deles com história e marcas diferentes e precisando assimilar não somente o material, mas também o seu temperamento".

Toninho Nóbrega tem noção de que sua preocupação expressa a impossibilidade de vincular a dança que quer fazer a um contato com suas fontes primevas. "Seria como exigir que um bailarino clássico viajasse um século ou dois para trás." Cuidou, então, do que chama de 'temperamento'. "Tentei formular um léxico versátil, realizando uma grande triagem vocabular em todos esses anos de pesquisa, buscando sobretudo o temperamento, a maneira como o movimento é conduzido. Acredito que temos um temperamento pela nossa maneira como o Brasil se constituiu como cultura e isso tem uma marca no modo de se sentir e estar no mundo."

Humus tem três momentos - Semeando, Fertilizando e Florescendo -, mas talvez nós não os identifiquemos. "Não acho importante que o público perceba o conjunto de coreografias que compõe cada um deles. A novidade não está aí, mesmo porque a estrutura do espetáculo é bem convencional, mas sim na tentativa de deslocar os nichos onde estão o contemporâneo e o popular. Nessa via comum que proponho, nessa região limítrofe entre os dois, é que coloquei a minha dança, a das matrizes que venho tentando aprofundar. São 4, 5 séculos de decantação produzindo um léxico muito rico."

O futuro da companhia, como de toda a dança profissional em nosso país, é ainda incerto porque, para levá-la adiante, será necessário financiamento. Segundo ele, a companhia vai apontar muitas direções em relação ao seu trabalho.

"Desde o que apresentei no Carlton Dance (refere-se ao 'Reino do Meio-Dia', de 1989), tenho feito a mesma coisa, só que a cada vez tento fazer de maneira nova, incorporando alguma coisinha. Não sinto que cheguei e nem sei se se chega a um lugar confortável, porque a vitalidade da arte é tecida pelo dissolver para avançar, mas não no sentido de uma destruição suicida, e sim no do novo que surge do que você já fez."

Na dança, essa tem sido a sua ignição e é a mesma que o leva a dizer que depois do rico um ano e meio que dedicou à companhia, pensa em escrever um trabalho sobre as conclusões que apareceram em Humus. 25 anos depois da sua experiência como professor universitário na Unicamp, Toninho Nóbrega volta a pensar no ambiente acadêmico: "Quem sabe alguma universidade tenha interesse em acolher esse meu novo projeto?".

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