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E daí, Presidente Morte?

Não significamos nada para este senhor Jair. Ele tem por nós desdém, desprezo, desapego, desinteresse. Acima de tudo, desamor

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2020 | 11h29

Quando ouvi o presidente exclamar “E daí?” diante das mortes provocadas pelo covid 19, tive ânsia de vômito. Em seguida, pensei: é um monstro. Um homem sem aquilo que minha mãe chamava de misericórdia. Na mesma hora, me veio a ordem do governador geral da Polônia, em janeiro de 1942, pouco antes da reunião em Wannsee, Berlim, que determinou a aceleração da Solução Final (nem Bolso nem o chancelar Arruda acreditam nela), destinada a exterminar todos os judeus, todos os inimigos do nazismo. O resultado, 6 milhões de mortos em fornos crematórios, fuzilamentos, e tudo o mais.

Sabemos hoje alguns nomes daqueles que comandaram a operação. Inesquecíveis Himmler, Heydrich, Adolf Eichmann e Josef Mengele, este chamado de o Doutor Morte, pela frieza com que executou as mais perversas “pesquisas” em nome da ciência.

E dai? Daí que me veio acachapante sensação, que não foi de repulsa ante a frieza e a indiferença com os milhões de habitantes do Brasil. Não foi de raiva, nem de ódio. Foi de uma tristeza imensa diante de tal desumanidade e desrespeito à dor alheia, à dor de uma nação. Não significamos nada para este senhor Jair. Ele tem por nós desdém, desprezo, desapego, desinteresse. Acima de tudo, desamor. Fiquei deprimido. Não sou ninguém, minha família nada é, meus amigos nada são, nenhum brasileiro tem qualquer significado, nenhum ser humano tem direito à vida. Nosso presidente não liga um pingo para nós, para nossas existências. Nem pelas vidas daqueles que votaram nele. Porque, se as mortes continuarem nessa progressão, onde vão parar? Se é que vão.

Expressão tão sórdida, me provocou sensação de asco. No mesmo momento, tive um retorno, memória afetiva (afetiva não é bem o termo aqui), que me fez mal, acabrunhou-me. Reação igual de mal estar tive em 1987, quando, em Berlim, como um dos convidados do DAAD para os 750 anos da cidade, decidi percorrer uma exposição chamada Topografia do Terror.

Em determinado espaço da cidade, estavam alguns edifícios que lembravam a zona do terror nazista, a Gestapo, a SS, a Direção de Segurança do Terceiro Reich. Um espaço relativamente (hoje é um memorial) pequeno onde se reunia a mortífera concentração de poder e terror do nazismo, a Prinz-Albecht-Strasse (hoje Niederkirchenstrasse), a Wilhelmstrasse e a Anhalterstrasse. Dali, emanavam as ordens de morte, horror, torturas, prisões, assassinatos, lugar que faria a delícia do famigerado Ustra, ícone do Messias. Dali, saíam as ordens que levaram milhões e milhões de judeus, ciganos, homossexuais, inimigos políticos para a morte em campos de concentração. Esse horror é conhecido.

Havia também o prédio, o Tiergarten 4, onde se procedia o Projeto T4 para Eutanásias, ou seja a eliminação de loucos, deficientes físicos, seres inúteis, tuberculosos, não convenientes a raça ariana. Como os idosos hoje, aqui. Quem estudou a história, há de se lembrar da Hans Frank e sua frase célebre. Em reunião na mansão de Wannseee, lago ameno na periferia de Berlim, em janeiro de 1942, quando se acertaram os ponteiros para a Solução Final, ou seja a morte de todos os judeus, Frank acentuou: “Cavalheiros, devo lhes pedir que se armem contra quaisquer sentimentos de compaixão”. Havia então, na Polônia, 3,5 milhões de judeus. Frank disse: “Não podemos atirar nesses 3,5 milhões, não podemos envenená-los, mas devemos ser capazes de tomar medidas que, de alguma forma, levem ao sucesso no extermínio absoluto”.

Assim, a morte de seis milhões de pessoas foi executada sem compaixão. Neste momento, no Brasil, enquanto hostes humanas – milhares e milhares de médicos, enfermeiros e voluntários – lutam, arriscando a própria vida, para defender a vida, o presidente, condena o isolamento e diz: “E daí?” “É humano esse homem? É isso um homem?”, como perguntou Primo Levi, em um de seus livros mais pungentes. E dai? Daí que nem eu, nem mais de 210 milhões de brasileiros queremos morrer de covid 19. Se sobrevivermos, vamos nos lembrar sempre de você, Jair, como o Presidente Morte.

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