É cópia da mãe

Por ser madrasta, não sei se vou ganhar presente de Dia das Mães

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

13 Maio 2018 | 02h00

Creio que “nossa, você está a cara da sua mãe” é a segunda frase que mais ouvi na vida, perdendo apenas para “cpf na nota?” (que em Portugal se transformou em “contribuinte na fatura?”, mas segue firme em meus ouvidos). Desde os meus 12 anos de idade, a pergunta surgiu, se instalou confortavelmente e nunca mais foi embora.

De fato, eu sou a cara da minha mãe. E adoro isso. Acho que um dos maiores elogios que uma pessoa pode ouvir é dizerem que eles são parecidos com seus pais, em qualquer aspecto que seja. Exceto os filhos do Trump. Esses não. Todavia, eu não esperava ficar parecida com dona Maria Eugenia em algumas outras esferas da vida. Pelo menos não tão cedo. Mas dizem que quem sai aos seus não degenera.

A primeira vez que perdi meu carro num estacionamento, eu estava num shopping de São Paulo. Não, não pode ser, eu repetia. Perder carro no estacionamento é coisa da minha mãe, não minha! Mas assim foi. Tive que chamar o segurança e tudo mais. A segunda vez, já foi em Lisboa, num contexto um pouco mais grave. Busquei minha enteada na escola e resolvi fazer compras no supermercado do shopping. Então era eu, carrinho, criança, mochila e o escambau, às voltas na garagem do shopping, buscando um carro perdido. Ai, Maria Eugenia, ai.

Lembro que uma das minhas coisas favoritas na Páscoa, quando criança, era que minha mãe escondia os ovos e depois, quando procurávamos, sempre percebíamos que ela havia se esquecido dos lugares onde escondeu. Por isso, frequentemente, alguns ovinhos miúdos só eram descobertos muitas semanas depois, enquanto minha mãe ficava em pânico achando que ia aparecer barata em casa por causa do chocolate perdido.

Muito bem. Nessa Páscoa, eu fui esconder os ovinhos da minha enteada. Abri o pacote com miniovos praliné (porque aqui na Europa é tudo mesmo chique) e dividi o conteúdo em 6 grupos. Optei por esconder apenas na sala, para não ter erro. O que aconteceu? Ela só achou 5 e, por razões genéticas, eu não fazia a mais pálida ideia de onde estava o sexto grupo de ovos de Páscoa. Um filme absolutamente repetido.

Ela ria “ó Rú, não sabes mesmo onde escondeste?”. Eu olhava para todos os cantos daquela sala, inconformada, já imaginando insetos e outros seres vivos procurando os ovos na madrugada. Será que eram só 5 grupos de ovos e não 6? Não. Eram 6, tenho certeza. Mano do céu, tô igual à minha mãe. Ainda peguei a embalagem para ver se diziam quantos ovinhos havia. Mas só dizia que eram 100g. Tentei colocar os ovos na balança, para ver se dava o peso total. Minha balança nem acordou. Eram 6, eu sei que eram 6. A sala nem é grande, não é possível.

Enquanto eu procurava os ovos transtornada, a Francisca ria e dizia “eeee Maria Ógênia, eeee Maria Ógênia”. Desisti. Até hoje não achei. Uma hora eles aparecem. Ou não. Rezo apenas para que a fauna lusitana não os encontre antes de mim.

Maria Ógênia, mais conhecida como Maró, segue dando espetáculo. A última que ela fez foi, ao viajar para a Alemanha, esquecer-se da pasta de dente, entrar numa farmácia e comprar uma nova. Escolheu uma bem pequenina, ótima para viagens. Ao abrir a caixa, estranhou que houvesse um aplicador, mas não deu bola. Colocou na escova, molhou e começou a escovar os dentes. Não fez espuma. Era grudento. Sim, era cola de dentadura.

Essa é a minha mãe. E essa é a pessoa na qual estou me tornando. Por ser madrasta, não sei se vou ganhar presente de Dia das Mães. As escolas não lembram muito da gente. Mas tenho esse presente maravilhoso que é saber que estou cada dia mais parecida com Maria Ógênia – até nas piores partes. E é bom saber que a Francisca acha graça em mim como eu sempre achei nela. Deus nos ajude com os carros perdidos, os ovos esquecidos e as pastas de dente distorcidas. Estamos felizes assim.

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