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Leandro Karnal
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É Círio outra vez

A festa funciona pelos seus dois grandes símbolos: a corda e a berlinda

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

28 Outubro 2018 | 06h00

Um cético na festa do Círio de Nazaré é uma contradição em termos. Fui convidado por Fafá de Belém em um almoço na casa de Maria Fernanda Cândido. Disse sim logo, meu interesse em quaisquer fenômenos religiosos é grande. Meses após o convite, o segundo domingo de outubro chegou. Era Círio outra vez.

Padre Fábio de Melo havia me antecipado várias coisas sobre a data. Cheguei curioso a Belém. Tenho longa experiência com centros marianos. Acompanhei o culto à Virgem de Guadalupe, no México. Estive em Fátima e Nazaré (Portugal) muitas vezes. Visitei Lourdes, na França; Loreto, na Itália; Luján, na Argentina; a Virgem do Pilar em Saragoça e muitos lugares menos conhecidos. Devoções massivas são grandes vitrinas da sociedade. Nos santuários ingressamos em um ritmo diferente, de estratos subterrâneos anteriores ao Iluminismo. Na rala camada entre o imanente e o transcendente instala-se o nicho da imagem sorridente de Maria.

O primeiro impacto para um novato na festa é a inclusão. Famílias variadas, casais homoafetivos (existe o baile LGBT da Maria Chiquita em pleno Círio), jovens, idosos, pessoas que parecem ser de classe média, homens do interior do Pará, ribeirinhos e tantos outros. Vi um grupo da Assembleia de Deus, ramo pentecostal do Cristianismo que rejeita imagens, servindo água aos peregrinos, cumprindo o princípio expresso na parábola do bom samaritano: o objeto do nosso bem não pode ser sectário. Pessoas refrescam os fiéis acalorados, outros lavam pés machucados. Andar sem calçados era, no período colonial, um sinal da servidão. No Pará parece ser um símbolo de um Brasil momentaneamente igual.

Sei que o Círio, como toda grande festa, pode favorecer apropriações políticas e corporativas. A devoção estimula sonhos de poder e de arrecadação. A religião também funciona na clássica chave de opiáceo que atenua as contradições sociais e torna massas submissas e resignadas. Sim, também havia coisas assim. Isso faz parte, todavia não representa o todo.

A festa, nos seus muitos momentos (procissão fluvial, de motos, de bicicletas, de trasladação da imagem da Basílica para a Sé, de volta da imagem para seu lugar), funciona pelos seus dois grandes símbolos: a corda e a berlinda. A berlinda é o andor envidraçado que carrega a pequena e bela imagem da Virgem de Nazaré com o filho ao colo. Ali, como signo aberto, estão concentradas duas das mais fortes expressões da nossa percepção: o sagrado e a maternidade. A imagem reúne o anelo por um mundo melhor, terno, como desejaríamos a vida: tranquila e florida. Maria de Nazaré é a utopia do possível. Na cabeça dos fiéis, identificamos livros escolares (agradecendo a conclusão dos estudos?), casas de madeira (obtenção da casa própria?), barcos em miniatura e ex-votos que trazem as vidas em mosaicos para serem unidos pela Virgem-Mãe. A Senhora é um ponto de fuga, aquele local áureo da pintura clássica do qual saem todas as linhas que marcam as distâncias na tela. Cada um atrai a linha para si a partir da sua realidade. Muitos pais trazem crianças vestidas de anjo. Expressam o mais forte sonho de todo mundo que gera uma vida: que nada de mal aconteça aos seus filhos. A pequena estátua concentra os impulsos positivos e desejos de dois milhões de pessoas ali.

O primeiro símbolo, dissemos, é a berlinda, foco e centro da festa. O segundo é a corda bem firme em milhares de mãos. O povo é unido milimetricamente. Fafá ensinou-me que, para não se machucar no “mar de gente”, é preciso não resistir, não firmar com dureza os pés, pois a resistência pode ser perigosa. O segredo é deixar-se levar, dócil e parte de todo, ondulando, sendo guiado e guiando, átomo da correnteza humana que pulsa com um olhar e um coração. Fiquei impressionado: a massa empurrava em fluxo e refluxo, sem pânico, sem gritos. A emoção e o calor provocaram alguns desmaios, rapidamente atendidos por uma equipe extraordinária. Nunca havia visto tanta gente sem se machucar, emulando no andar quase guiado a docilidade que a alma deveria ter com o Criador, com o fiel que se deixa conduzir pela Divina Providência. Com os corpos, eles vivem o segundo pedido do Pai-Nosso: “Seja feita a Vossa vontade”. O oceano humano ondula, aperta, empurra e avança em direção ao destino. A corda une à mãe, como sinuoso cordão umbilical, canal de vida e de dependência total. O grosso fio vira relíquia: retalhado, partido, multiplicado com seu efeito protetor em bolsas e carteiras, um pedaço material de tudo aquilo que foi vivido. Recebi um pedaço dado por uma fiel.

Li quase todos os clássicos sobre análise religiosa e antropologia do sagrado. Lanço meu olhar cartesiano sobre procissões há mais de 30 anos. Tudo pode ser compreendido, porém, algo escapa porque o todo é imensamente maior do que as partes somadas. Talvez isso tenha feito o ateu chorar ao ver a berlinda, memória da minha antiga devoção mariana, melancolia da infância, evocações do luto materno: Freud e Lévi-Strauss sussurram algoritmos no meu ouvido; meus olhos teimam na emoção ancestral de pertencimento. O povo do Pará anda, canta e chora. Belém volta a ser local de nascimento da salvação pessoal, ali na Amazônia, como foi na cidade de Davi. E como somos humanos, frágeis, tolos, vaidosos e violentos, no ano que vem, Nazinha terá de desfilar de novo. Bom domingo para todos nós.

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