'É BOM TER ESSE FRIO NA BARRIGA'

Seis CDs com mais ou menos os mesmos ingredientes, agenda concorrida de shows pelo Brasil e o mundo, praticamente uma unanimidade entre os fãs de samba, Mart'nália agora quer "fazer outro som, pegar mais pela melodia do que pelo ritmo".

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2012 | 03h06

Em Não Tente Compreender (Biscoito Fino), o CD que está chegando às lojas e que já toca nas rádios, se ouvem teclado, baixo, violão, guitarra, sopros. "Mudei de poesia e fui para o pop, sem cuíca, pandeiro e tamborim", ela avisa, em seu texto de agradecimento.

Depois de uma sequência de trabalhos com "a galera de Vila Isabel", calcados na percussão (era um quarteto dedicado ao batuque) e com as cordas do samba, a cantora achou que precisava deixar a tal zona de conforto. "Era tudo lindo e gostosão, mas às vezes, desgastante. Eu já entrava com o jogo ganho."

Pensou logo em Djavan, a quem já havia gravado e de quem admira "o jazz" e o "djú-bidjú-bidjú". "O Dija tem essa melodia que vai para aquele lado que a gente não pensou. Para mim, é um sambista. Se eu posso brincar de outra coisa, posso errar pra caramba, mas vou brincar."

E quem resiste a Mart'nália? A voz mansa, a boa-pracice herdada de Martinho, a risada a toda hora, a despretensão, a molecagem. Djavan até tentou, mas não resistiu - foi preciso persegui-lo depois de shows para convencê-lo. "Me dirige aí!", pedia.

"Eu estou me divertindo bastante, é supergratificante. É bem diferente da minha rotina. Martina é ótima e talentosa. A gente conversou muito, as ideias coincidiram. Tudo foi colocado de maneira amorosa e simples", contou Djavan nos depoimentos dos bastidores.

Não Tente Compreender é um "disco de amor", sem as letras provocativas e malandras de CDs anteriores, que falavam de flertes e noitadas (Chega, Cabide, Tava Por Aí, Ela É Minha Cara...).

Mart'nália pediu e recebeu músicas de um grupo de notáveis: Marisa Monte, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nando Reis, Lula Queiroga, Ivan Lins (que virou parceiro). De Adriana Calcanhotto, finalmente gravou Vai Saber, o samba feito para ela há seis anos, mas registrado primeiro por Marisa porque o CD com a música entregue pela gaúcha se perdeu. "Fiquei morrendo de vergonha, esperando o disco da Marisa sair para aprender a música", lembra, marota, sempre o sorriso branco.

É das poucas levadas de samba (com piano, violão, bandolim e um resquício de percussão) entre as 14 faixas. Outra é a solar Itinerário, de Max Viana, filho e "representante" de Djavan entre os compositores.

A faixa-título, que brinca com a mudança de ares, é de Marisa e Dadi, "um popzinho" que fala do amor como "uma semente jogada no chão". O clima carioca, uma marca, está impresso no disco na busca pelo amor pedalando na Lagoa, ao sol poente do Leblon.

Bossa-novista, Eu Te Ofereço, de Gil, faz promessas de um relacionamento sem cobranças: "E nos bares que tu frequentes/ sirvam outros cachorros quentes/ refrigerantes/ que não comeste/ bebeste por aqui." Caetano, por sua vez, em Demorou, fala de um "coração cheio", a realização de um sonho amoroso. Depois Cura, de Lula Queiroga, faixa com sotaque nordestino emprestado pelos pífanos de Carlos Malta, chora a dor da perda. A música nas rádios é a gostosinha Namora Comigo, de Moska.

As letras de Mart'nália vão mais para a paixão, o desejo. "Serei eu a sua estrada?", pergunta, na faixa com Ivan e Zélia Duncan, antiga parceira. Mombaça, também velho colaborador, coassina Que Pena, Que Pena...: "Só me encontrei no teu paladar/ Já estava em suas mãos."

Zero Muito, de Nando, que trata do velho amor não correspondido, "nação sem ser lugar", pode ser um momento surpresa do show, a ser dirigido por Guilherme Leme e Marcia Alvarez, produtora executiva do CD, com luz de Ney Matogrosso (dia 12/5 no Vivo Rio; 17/5 no HSBC Brasil): a percussionista Mart'nália, que toca violão só na hora de compor, ensaia para tocar guitarra em cena. Quem emprestou o instrumento foi Tony Bellotto. "Dói muito o dedo!", reclama.

Ela sempre canta Martinho, dos hits aos sambas desconhecidos. Dessa vez, escolheu a triste Reversos da Vida, de 30 anos atrás. Nos dois meses de preparação do CD, Mart'nália chegou a ligar para o pai para saber se estava no caminho certo. Mas as respostas sempre eram na linha "faz o que você quiser; se você está feliz..."

Mudar dá medo, mas o humor é o mesmo. "Não gosto de ficar 'só ali', sempre fui 'dali' também. Mas no show vou ficar tremendo. É como se eu estivesse pelada."

Djavan repetiu agora o que Caetano havia feito em 2002 (ele dirigiu o CD Pé do Meu Samba, com Celso Fonseca, com o qual Mart'nália começou a aparecer) e Bethânia, três anos depois (em Menino do Rio, do hit Cabide, de Ana Carolina): extrair o seu melhor, realçando as sutilezas de sua voz e sua graça, sem tentar domar sua personalidade errante - quem a conhece minimamente sabe que não daria certo.

"Aqui a artista é ela, eu sou apenas funcionário", Djavan brinca nos teasers que a Biscoito Fino postou no hotsite criado para o CD - uma das apostas do ano. "Achei elegante, hein! Está gostando?", ele se preocupa, depois de um take de Serei Eu?

A tarefa de Caetano era ajudar uma iniciante Mart'nália, percussionista e backing vocal de Martinho desde os 16 anos, a achar o próprio tom. A disciplinadora Maria Bethânia lhe pedia que cuidasse da voz, que desse um tempo da boemia. "Ela queria minha voz limpa, para ficar em primeiro plano", relembra.

A ideia agora é que a atenção maior seja ao microfone, e não ao chocalho, ao pandeiro. O que lhe deixa insegura: "É muita coisa para lembrar, não é como antes, quando eu estava sempre à vontade", explica.

"O Dija chegou para mim e disse que eu podia cantar qualquer coisa. Pediu as músicas na voz e violão, para poder fazer os arranjos. Me ensinou a mudar algumas divisões, a respeitar a métrica do compositor... Eu tenho essa coisa meio Martinho da Vila no cantar, de não se preocupar em terminar as palavras. Gosto da liberdade que a música pode dar. É bom ter esse frio na barriga que eu não conhecia." / R.P.

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