É bom, mas...

Serra seria a opção ideal para aqueles que acreditam que, numa democracia, é importante a alternância. Se Dilma for eleita, serão 16 anos, pelo menos, de um mesmo grupo regendo o País e quebrando sigilos.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Ela até pode fazer um governo impopular, mas seu mentor, Lula, que não cria conflitos com ninguém, voltaria facilmente, caso o tédio desembarque em São Bernardo, e a ONU não o eleja secretário-geral, o que, depois do desastrado apoio ao Irã, tornou-se uma utopia.

Mas Serra fez um governo questionável no Estado e apresentou um discurso confuso. Em educação e segurança, recebeu críticas, e pertence a um partido que muitos acusam de não entender a ginga do brasileiro.

Dilma: incógnita. Temperamento desconhecido, ligações com os clãs de sempre (Sarney, Collor, Zé Dirceu), sem experiência no Parlamento ou nas urnas, pode se dar bem, como pode se isolar com a falta de dom em lidar com conflitos explosivos, quesito prioritário para se governar um País de instituições frágeis e herança autoritária.

Marina Silva, a terceira via, tem teses mais avançadas e um carisma que encanta. Porém, vem de um partido volátil e é ligada a um grupo religioso que defende as teses mais arcaicas do comportamento humano. Pessoalmente, ela é contra o aborto e a união homossexual.

Dilma parece ser a barbada. Esperavam que, quando abrisse a boca na campanha, a máscara cairia. Que nada.

Como será o seu governo? Palocci no comando da economia é um alívio para o mercado e um risco para os sigilos bancários de caseiros. Ela conseguirá conflitar com quem realmente atrapalha? Será a nossa Thatcher ou Kirchner?

Dados apontam que o mundo precisa dobrar a produção de "mistura" em dez anos.

A revista The Economist, que já afirmou em matéria de capa que o Brasil enfim decolou, diz agora que a agricultura brasileira é um modelo a ser seguido.

É dos poucos países que não a subsidiam, abriu o mercado para empresas estrangeiras e conseguiu milagres, como produzir no cerrado, graças a pesquisas de uma estatal, a Embrapa, que importa sementes de capim da África e as tropicaliza, adocica o solo ácido não cultivável, usa biotecnologia para fertilizar a terra e faz do Brasil o "sacolão" do mundo.

Conseguimos, sem muita intervenção do governo, passar de importadores de comida para o quinto maior exportador - o único sob clima tropical.

A crise mundial afetou o Brasil como uma marolinha. E somos independentes em petróleo, algo que, para a geração que dirigiu Mavericks, Landaus e Opalas, soa como um sonho.

O índice de ruim e péssimo do governo atual é apenas 4%. O PIB cresce. Os investimentos externos, idem. É o País da moda. Não só de sandálias e biquínis.

Turistas que viajam para as antes cidades mais caras do mundo acham tudo uma pechincha. Nem parecem produtos importados. Autênticos lá custam menos do que piratas aqui.

Táxi em Londres, considerada a cidade com o transporte mais caro da Europa (4 libras o passe do metrô), é mais barato do que em São Paulo. Come-se num bom restaurante francês, incluindo entrada, sobremesa, café, vinho e mau humor do garçom, e paga-se menos do que num japa paulistano mediano. Graças ao câmbio insano, o dólar vale hoje menos do que valia em 1995.

Caso se anuncie que é brasileiro no exterior, não perguntam mais de Romário, Ronaldo e das mulheres, mas do progresso presente e das fórmulas do sucesso. Como conseguimos?

Muitos creditam às reformas do governo de FHC, o presidente que, estranhamente, saiu impopular. Muitos, à competência e acertos do governo Lula.

Duvido que haja um analista que conseguirá prever o fenômeno. ???Desenharam quando Lula redimensionou o tamanho do tsunami que invadiria nossas areias. Dentro da bagunça que é este País, forças quânticas deram sinais de que acertamos.

Porém, e isso os estrangeiros não sabem, o dia a dia dos brazucas continua a mesma bagunça de sempre.

O transporte público é uma piada. Não existe metrô suficiente nas grandes cidades, nem ciclovias - a bicicleta é ainda um meio de transporte para lazer. Não há rede ferroviária que ligue as grandes cidades. As estradas estão entupidas de anacrônicos caminhões. Os aeroportos não dão conta da demanda. Viajar é mais uma aventura desgastante do que um exercício para nos livrarmos do estresse.

Pagamos a telefonia mais cara do mundo. A banda larga é amadora, perto dos 10 MB normais de outros países. A Justiça é lenta e deixa fora das cadeias criminosos confessos, como o jornalista Pimenta Neves.

A violência é endêmica. Se é normal ver garotas sozinhas passeando de madrugada pelas ruas de Londres, Paris e NY, não se anda à noite com tranquilidade por nenhuma rua deste País. Nem de dia.

As contas da Previdência não fecham há décadas, e nada é feito para ajustá-las. A saúde pública é caótica. A corrupção é a regra, não a exceção.

Em 16 anos, promete-se uma reforma política e tributária. Duas administrações passaram e não ousaram mexer no vespeiro. O investimento em infraestrutura, 2% do PIB, é dos mais baixos do mundo. E o juro o mais alto.

Metade das pessoas não tem água encanada. O sistema educacional não dá oportunidades iguais. O brasileiro lê pouco e tem um dos piores índices de ida aos cinemas (0,5 por ano).

Mas amamos como poucos este País, nos orgulhamos de ser brasileiros, sorrimos da própria tragédia.

Apesar do caos rotineiro, temos explosões de alegria, sabemos comemorar e dar festas, somos fraternais, amáveis, simpáticos e bem resolvidos.

Ainda jogamos lixo pela janela. Não paramos na faixa para dar preferência a pedestres. Dirigimos como bárbaros. Buzinar é algo tão comum quanto dar a seta. Médicos cobram mais, se o paciente pedir nota. A noção de direito não é a mesma da de dever.

Sim, o Brasil é bom, mas...

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