E assim nasceu a América

'A Quarta Parte do Mundo' faz biografia do mapa que que batizou o continente

Elias Thomé Saliba,

02 Fevereiro 2013 | 02h07

Em abril de 2007, a chanceler alemã Angela Merkel transferiu oficialmente o único exemplar restante de um mapa-múndi de 1507, adquirido pela Library of Congress dos Estados Unidos pela nada surpreendente quantia de US$ 10 milhões. Nada surpreendente porque se tratava de um exemplar único, de 500 anos atrás, impresso a partir de blocos de madeira intrincadamente entalhados e composto de 12 folhas separadas as quais, quando removidas e montadas, formavam um mapa de aproximadamente 1,40 por 2,40. Elaborado pelo cartógrafo alemão Martin Waldseemüller e por Matthias Ringmann - um poeta humanista da região alsaciana - o mapa foi o primeiro a representar pictoricamente e a batizar com o nome América aquele novo continente, até então desconhecido.

A Quarta Parte do Mundo, de Toby Lester, é uma espécie de biografia detalhada desse mapa fascinante. Sem realizar pesquisas em primeira mão - mas sintetizando dados inéditos, dispersos em estudos especializados, quase inacessíveis aos leitores de hoje -, Lester consegue reconstruir o intrincado percurso desse artefato vivo da história cultural renascentista. Em vez de tomar o caminho tradicional da história do período, que se limita a destacar as descobertas isoladas, deixando de lado o complexo processo de difusão e disseminação das mesmas descobertas, Lester realiza o prodígio de revisitar as vidas de todas aquelas criaturas que, em algum momento, tiveram suas vidas marcadas pela história do mapa.

O resultado é quase um biografia coletiva, que narra as histórias tanto de nomes notáveis e mitológicos como Marco Polo, Preste João, Kubla Khan, Ptolomeu e Copérnico, quanto nomes menos conhecidos, como o incrível Poggio Bracciolini - um humanista antiquário cuja história nos foi contada recentemente por Stephen Greenblatt em A Virada (Companhia das Letras, 2012).

Quando Colombo e outros navegadores começaram a navegar através do Atlântico se orientavam por duas geografias sobrepostas: uma possuía uma concepção de mundo empiricamente fundamentada em cartas náuticas, informações fragmentadas de marinheiros e mapas; a outra era de orientação teológica, calcada na ideia bíblica de que os caminhos e as rotas físicas representavam roteiros espirituais. Nessa inextricável mistura de elementos imaginários e reais, Lester parece ter seguido o sábio conselho de Carlo Ginzburg - quando ele diz que em toda história o falso é parte do verdadeiro -, conseguindo filtrar o que havia de mais importante nos elementos imaginativos para esclarecer narrativas factuais. Lembre-se que a aparição do mapa-múndi de Waldseemüller praticamente coincidiu com o advento da imprensa e, neste caso, nos concentramos excessivamente na revolução cultural representada pela disseminação da palavra impressa. Lester nos lembra que o advento da prensa móvel também possibilitou a difusão dessas primeiras representações pictóricas do mundo moderno. Paradoxalmente, muitos dos primeiros livros impressos deram aos textos e ideias medievais um novo fôlego, justamente quando tais concepções estavam se tornando obsoletas, já que perpetuavam uma visão de mundo que tanto os exploradores quanto os eruditos humanistas estavam desconstruindo.

Quando humanistas traduziram e editaram a Geografia de Ptolomeu, na segunda metade do século 13, muitos historiadores interpretaram erradamente tal evento como um retrocesso na história da cartografia. Ao contrário - e apesar do seu incoerente heliocentrismo -, Ptolomeu inspirou humanistas e antiquários a incluir em seus mapas as terras ainda incógnitas e desconhecidas, sugerindo que, afinal, toda geografia exigia questionamento, revisão e debate. A tradução da Geografia para o latim foi essencial, mas não uma tarefa fácil. Eram poucos os eruditos que sabiam grego e a maioria deles estava desaparecendo, junto com a desintegração do império bizantino. Desapareciam os "greguinhos", segundo a designação irônica do próprio Petrarca. Mas vale a pena conhecer a história de um desses "greguinhos", chamado Manuel Chrysoloras, que, de simples professor da língua, se tornou um verdadeiro herói cultural para muitas gerações de sábios humanistas.

Para alimentar nossos ímpetos de brasilidade ibérica, Lester também reconstitui o momento áureo da história de Portugal, pois esse país - anteriormente visto pelos outros europeus como um simples fornecedor de bacalhau, sardinhas, cortiça e vinho do Porto - se transformou, a partir da conquista de Ceuta em 1415, no centro de onde vinham os diários de bordo, portulanos, cartas náuticas e o colosso de informações que alimentavam os cartógrafos sedentos de novas referências, incluindo a dupla Waldseemüller e Ringmann, os autores do mais famoso mapa-múndi da história moderna. E nessa célebre e valiosíssima representação pictórica da primeira modernidade, o Brasil transformou-se - é certo que durante não mais que uma década - no paradigma do espaço ocidental mais longínquo do mundo até então conhecido.

* ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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