...E as histórias do cinema

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A cerimônia de entrega do Oscar é habitualmente marcada por discursos de agradecimento, com os vitoriosos jurando que não estariam ali, com a estatueta em mãos, não fosse a valiosa colaboração de seus pares. Terminada a leitura de Os Bastidores de Hollywood na Vanity Fair (Agir, 320 págs., R$ 49,90, tradução de Clóvis Marques), no entanto, o leitor passa a duvidar de qualquer adjetivo elogioso pronunciado especialmente por atores, diretores, produtores e roteiristas.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2010 | 00h00

Organizado por Graydon Carter, editor da revista desde 1992, o livro traz uma seleção de reportagens sobre os bastidores da filmagem de longas que, ou se tornaram clássicos (como A Malvada, A Embriaguez do Sucesso e Juventude Transviada) ou ganharam notoriedade com o tempo (Cleópatra, A Primeira Noite de um Homem e Os Embalos de Sábado à Noite). No total, são dez filmes cuja produção recheada de intrigas, brigas e discussões foi detalhada por repórteres da Vanity Fair, considerada "a bíblia mensal do jet set".

É bom lembrar que os textos foram escritos no final da década de 1990, com os repórteres recuperando detalhes a partir da lembrança dos profissionais que ainda estavam vivos. E, quando encontravam os protagonistas, tanto melhor.

Foi o caso de Elizabeth Taylor, que apresentou valiosas confidências sobre a acidentada produção de Cleópatra (1963), considerado o filme mais caro já produzido por Hollywood (44 milhões de dólares na época, um absurdo quando uma megaprodução não passava dos US$ 15 milhões, como Ben Hur). Na verdade, o longa acumulou problemas em um grau inédito até então ? além do estouro no orçamento (provocado por dois elencos diferentes e dois anos e meio de filmagens em quatro países), o longa dirigido por Joseph L. Mankiewicz quase levou a Twentieth Century Fox à falência e, néctar para revistas de fofocas, evidenciou o adultério da atriz Elizabeth Taylor que, apesar de casada com Eddie Fischer, iniciou um tórrido romance com Richard Burton.

"Aquela foi provavelmente a época mais caótica da minha vida. E até hoje não mudou nada", disse Liz, cujo affair, além de ocupar espaços mais generosos na imprensa que o feito de John Glenn (primeiro astronauta americano a entrar na órbita da Terra), motivou também a divulgação de uma "carta aberta" do Vaticano, condenando a atriz por "volubilidade erótica" ? afinal, quando assinou contrato para estrelar o filme (por US$ 1 mi, aliás, outro feito para a época), Liz já tinha sido quatro vezes noiva, uma vez viúva e outra, supostamente, destruidora de um lar.

Apesar de uma exposição tão maciça na imprensa, a atriz não foi à noite de estreia nos Estados Unidos, assistindo a Cleópatra dias depois, em uma sessão particular, em Londres. E, segundo disse à Vanity Fair em 1998, dela saiu rapidamente para o hotel, onde vomitou.

A tensão é um ingrediente habitual de qualquer trabalho artístico, mas, em certos casos, chega a atingir níveis exagerados. Em A Malvada (1950), clássico também dirigido por Mankiewicz, o grau de rivalidade entre a veterana Bette Davis e sua colega Anne Baxter extrapolava o suportável, como atestou um dos atores do filme, George Sanders, vencedor do Oscar de coadjuvante por esse trabalho. "Davis tratava o tempo todo de roubar a cena de Anne Baxter, levando-a ao desespero", contou, anos depois. "Ela interpretava uma mulher de 40 anos enciumada de uma outra muito mais jovem como se tudo aquilo estivesse acontecendo diretamente com ela. Anne sentia a tensão e a perversidade por trás de tudo, e acreditava que isso até mesmo a estimulou a atuar ainda melhor do que se estivesse na companhia de uma coestrela amigável."

Na guerra de egos, nem uma belíssima novata chamada Marilyn Monroe escapou ? já irritando a equipe com um defeito que marcaria os filmes que faria a seguir (chegar atrasada ao set), Marilyn incomodava também Bette Davis, para quem "essa vagabunda loura pensa que sabe atuar e que basta sacudir o traseiro e sair arrulhando para roubar a cena". Anos depois, veio o troco, quando Marilyn a chamou de "velha má".

Todos atores, entretanto, confiavam no diretor Mankiewicz. O mesmo não se pode dizer de James Dean e o cineasta Nicholas Ray, que o dirigiu em Juventude Transviada (1955). O filme marcou a carreira do ator, que morreu dias antes da estreia, vítima de um acidente de carro. Mas, antes do início das filmagens, Dean simplesmente desapareceu, desconfiado da capacidade de Ray. Isso quase fez os produtores da Warner o demitirem do filme, o que não aconteceu por interferência do diretor. Decisão que, involuntariamente, tornou o ator em mito.

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