E ainda era no tempo do rei

Leia conto inédito que relata a história de um certo Everaldo, 'o mais antigo boticário da rua da Portela'

Vinicius Jatobá,

08 de fevereiro de 2013 | 23h48

Quando a prosa plumada do bacharel engomado encontra o falatório desdentado da mundiça valorosa é de se esperar temperada discordância porque se o livro de lombada de couro proclama Paulo da Portela e Alcides Lopes, Heitor dos Prazeres e Antônio Rufino, Dona Ivone Lara, Maninho Décio, Beto Sem Braço, e outros bambas, como figuras lendárias do Carnaval glorioso de Madureira e de Oswaldo Cruz, a mundiça do seu canto, que é todo canto que tem de comer e de beber, coça o queixo, alisa a sobrancelha, e respeita opinião dada em tão distinta letra redonda, fruto de caligrafia e muito estudo latino, fósforo na mente, e ama de coração os eleitos mas insiste assertiva também, a honrosa mundiça, seja no curió, no secos & molhados, no átrio se benzendo, seja nos botecos dos diplomatas da birita tramando pirraçadas e no afamado e calibrado estoque do Mercadão em torneios de porrinha, e insiste gritando e arfando, que a imortal mundiça só é de paixão suada e não sabe conversar miúdo, em eleger sua própria plêiade.

E assim aplaude a majestade de Magé Fabuloso, que jamais entrou em livro algum porque não cabe, pilantra que quando assobiava até as beatas velhacas da igreja Cristo Rei erravam o caminho divino da linha do crochê, o marechal das serenatas e dos bailes improvisados aos pés do coreto de Vicente de Carvalho. A mundiça relembra também, com honras, e fazendo beiço manhoso, fechando os olhinhos, o festivo quadril intempestivo da passista Amanda, musa eterna dos Boêmios de Irajá, que quando ofertava as costas da mão escura e cheirosa causava um rebuliço assanhado na turba admirada, e era de sorriso leitoso nas noites mágicas de confetes e de serpentinas, beldade cujo umbigo serelepe quase fulminou com metade dos casamentos de Vaz Lobo. E não esquece jamais para o pódio, a afamada mundiça, o rebolado mambembe de Pedro Alves, que em dia pouco inspirado era capaz de carregar multidão só batendo o garfo no pinico, e se espirrasse qualquer três palavras juntas em guardanapo em noite de Lua Cheia fermentava verso bonito, e que sambava e bebia, e que comia farto e chutava bola preciso e piava com melodia, e que quando sobrava tempo até trabalhava dormindo sobre as sacas do empório do Velho Matias.

Conquanto e conseguinte diria o Seu Bacharel, cheio de portantos e entretantos e todavias, ou com esses olhos que Deus há de comer um dia diria a Senhora Mundiça, cheia de vacas que tossem e de juras de pés juntos e luzes que alumiam, a verdade é mesmo maçaroca misturada e ajuntada, reboco de um tanto ali e de um tanto aqui, ou tudo de lá ou tudo de cá, como mede e pede a boa educação que salva o homem de rastejar por aí que nem peçonha. Mas essa prosa é arrotada, é de combate, e sem qualquer etiqueta fina. E digo em alta voz e afirmo com valor e fé e assino juramentado que a realeza do carnaval, e pode chorar e rufiar verso para musa, e pode espernear, e pode até amolar a faca e dar pulinho e estrebuchar, o trono imbatível do carnaval de Madureira e de Oswaldo Cruz e ouso proclamar que do Rio de Janeiro inteiro fica com meu respeitoso tio-avô Everaldo, o mais antigo boticário da rua da Portela, homem temido pela régua da correção moral, que rezava para almoçar e rezava para jantar, e rezava para atravessar a rua e rezava para cortar cabelo, e até para espirrar, dizia minha tia-avó Clarice, pedia a bênção ao nosso Senhor.

Se a moça tinha parte do joelho à mostra já alcovitava do balcão, medindo quem é a mãe e é a tia e é a avó da donzela desvirtuada, se um assunto entre distintos senhores morria em silêncio atrevido para beleza morena desfilar, meu tio-avô Everaldo anotava nome e sobrenome dos cidadãos com gosto e capricho no talão, tramando denúncias para próxima grande missa. E quem gazeteava aula evitava a pavorosa rua da Portela, e quem bebia uma clarinha em hora de trabalho evitava a sinistra rua da Portela, e a beata que faltava à missa para bater perna olhando vitrine evitava passinho temeroso na calçada em frente à botica de meu tio-avô Everaldo porque era fatal, e com os óculos pretos pesados mais equilibrados sobre o bigode bojudo que no nariz aquilino, Everaldo era falcão que tudo avistava. E tudo avistava mesmo.

Mas acontecia. Era um primo misterioso que morria fatal lá no Espírito Santo e que Everaldo lamentava aos prantos, meneando a cabeça, magoado; uma tia distante em Minas que precisava de ajuda, a coitada, abandonada, marido canhestro, onde o mundo iria parar, ou um milagre novo da medicina moderna que clamava sua presença urgente e inadiável em São Paulo porque, dizia ao meu pai, e meu pai escutava franzindo a testa, quem cuida da saúde do bairro não pode nunca jamais relaxar, Seu Fabiano, a doença faz sua moradia em guarita mal vigiada. E acontecia: meu tio-avô Everaldo evaporava. E sem aviso qualquer, dias depois, abria a porta de casa e era só de choro, na cozinha, na sala, e minha tia-avó se benzia sorrindo, fazia um cafuné, e dizia é do tinhoso, é do tinhoso, e Everaldo moído, açoitado, com olheiras, fazia careta, suspirava, e apoiava exausto uma mão sobre a Bíblia e com a outra chupava doce de leite na colher. O dia inteiro. Sem pressa.

Em dezembro já começava a trama: enviava ele mesmo cartas para nossa própria casa com notícias alarmantes, e era doença e era tristeza, e meu pai perguntava logo se Everaldo já sabia quem ia falecer no ano seguinte para que pudesse comprar terno que condissesse com a importância do finado. Em janeiro andava pela casa com uns panfletos franceses esverdeados, mostrava as ilustrações fazendo beiço admirado, lia alto os nomes esquisitos, e meu pai já dizia que de avião a França é logo ali Seu Everaldo e vai comprando a passagem para o mês que vem que sou amigo, e ajudo a fazer a mala. Em fevereiro meu tio-avô Everaldo suava, agitado, e se ventasse forte fazia a bênção, e se não ventasse também. As preces antes do jantar eram mais longas, estórias febris de apóstolos e de castigos divinos, e meu pai apoiando a cabeça na mão dizia vou cochilar um pouco aqui que é conhecimento demasiado tarimbado que Deus perdoa o sono do trabalhador e quando acabar aí seu Everaldo faz a gentileza de me acordar, por obséquio. E a família prendia o riso. Só Everaldo mergulhava em seriedade cavernosa. Se recompunha. E retomava a palavra.

Quando minha tia-avó estendia no varal do quintal da casa o enorme avental italiano da cozinha, começavam as despedidas. Everaldo explicava apressado pormenores sem fim, meu pai distribuía coitados e coitadas, ou comentava mas tu estuda Seu Everaldo, o mundo vai cair na gandaia e tu se sacrificando lendo palavra difícil, admiro o senhor é muito. E meu tio-avô ajeitava os óculos pretos pesados e calibrava sobre a cabeça o chapéu impecável, dava um beijo suave na testa da minha tia-avó, e atravessava com passinho manco o quintal com a maleta de couro, da calçada se voltava uma última vez para casa e desenhava o gesto da cruz olhando para o azulejo com a imagem de São Jorge sobre a porta, e quando sumia meu pai dizia dona Clarice, esse aí tinha que ir todo fim de tarde atravessar a linha do trem para fazer gracinha e variedades com a vedete Zaquia Jorge, daria lotação máxima toda sessão e com a bufunfa dava para gente só dormir em colchão americano estrelado, estamos entendidos Dona Clarice. E minha tia-avó gargalhava divertida, rosada.

Só eu não entendia. Mas aí entendi.

E mais ano e mais ano tinha voado e era rapazote já, e era fevereiro e corríamos e pulávamos e éramos do Egito com o rosto queimado pelo sol do Saara, e era serpentina e era confete, e era bonde parar para descer o nosso amor faça o favor seu condutor que somos duzentos que vamos, e vamos unidos, rugindo que com alegria não se brinca que gargalhar é coisa séria dizia o chico rei no coração do bloco, e passou a jardineira balançando o ombrinho e o mundo era todo dela, que eu prometia e embrulhava com fitas de seda e ela soberba não desmanchava fazendo biquinho, que ingrata, e a mulher da minha vida passava ao largo mas na próxima esquina descobria que a mulher da minha vida era outra, e era o escarcel e a tramontana, empurrado e atropelado e abraçado, cantando rouco e de olhos fechados lindos versos de amor, versos suados, perfume de limão e era rodouro, e uma aurora me sorria da turba e sussurrava em seu ouvido que teria madame antes do nome se me amasse mas ela não acreditava, que te faço feliz meu amor e te amo mais que tudo e não acreditava, que ingrata, e prometia a lua para as colombinas e o sol para as bailarinas e beijava macio a mão das estrelas dalvas. Porque era carnaval, porque era feliz, e porque estava vivo.

E foi então que escutei o grito aqui está a Trompa do Ceilão, a mundiça gargalhando, muito empurra-empurra, e bem no meio da avenida Rio Branco, com uma colher de pau no sovaco e um charuto fanático no beiços, e com uma porca rosadinha de coleira correndo entre as pernas, meu tio-avô Everaldo mostrava e balançava as vergonhas com o avental italiano levantado. E logo deu dois pulos com a bunda de fora, a porca ganiu um verso festivo, e um padre cícero entrou na brincadeira gritando que se morresse o Gaspar Dutra teríamos mais outro carnaval ainda esse ano, e era de bater palmas e de soltar confete tamanha sabedoria, e para onde Everaldo partiu eu fui atrás. E vi ele rebolar abraçado com duas cangaceiras, e vi ele dando cachaça para um jegue assustado, e vi ele trocar murro com uns matutos do Cacique, tarol voando para tudo quanto é lado. E também vi Everaldo levantar o avental em frente ao Palácio do Catete, e gritar abraçado com dois capetas e um pierrô essa terça do diabo está gorda que dá gosto, e mandar pro inferno um faraó emissário que ofereceu o anel dourado de casamento pela porca, e empurrar uma malucada gritando sai daqui seus zé pereiras que carnaval não é entrudo, e quando a polícia chegou com porrete sobre a balbúrdia pirraçada na Mem de Sá vi Everaldo correr com dois reis, um índio, quatro bandeirantes e um getúlio de mão dadas com um lacerda até a praça Tiradentes. Tudo isso com a porca sobre a cabeça. Perdi ele de vista.

E veio a quarta. Sentei no Largo de Vaz Lobo com um pão com manteiga na mão. O que restava até o próximo fevereiro: ir ao Republicano, estudar gramática e matemática, fumar e beber escondido, ir ao cinema apreciar as divas, ajudar meu pai no açougue. No caminho de casa, passei por máscaras de reis e de majestades, chapéus e tacapes e leques e capas, largadas ao chão, acumuladas e acariciadas pelo vento matutino. Só quem brinca sente as cinzas da quarta: o coração estilhaçado, tantos filhos que nunca virão. Quarta é abismo, é precipício. Na rua Ouro Fino cruzei com a porca: vestia saia de bailarina, em fiapos, fuçava agitada o lixo de um vizinho. Entrei em casa. Todos dormiam. Peguei uma colher e entrei na sala de jantar, e sentei ao lado de meu tio-avô Everaldo. Ele tinha olheiras. Comecei a comer o doce de leite, suspirando. Perguntei sobre o enterro e Everaldo disse foi lindo, o padre rezou coisas sobre o céu e a terra, pobre alma. Mas foi para o céu. E se benzeu. Pedi a bênção e fui para o meu quarto. Recostei na cama. E da porta entreaberta escutei o assobio tímido de Everaldo, que por carinho de cabrocha ia a pé ao Irajá, meu tio-avô, o rei majestoso do carnaval carioca, rosetando na memória as travessuras dos últimos dias, feliz da vida com seu doce de leite.

VINICIUS JATOBÁ É CRÍTICO LITERÁRIO E FICCIONISTA, AUTOR DO CONTO NATUREZA MORTA, INCLUÍDO NA EDIÇÃO DA REVISTA GRANTA QUE REUNIU JOVENS ESCRITORES BRASILEIROS

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