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E agora, José?

'Segue andando com suas duas doses. Já dá pra visitar aquele amigo querido, levar as crianças no parque e começar a pagar aquela viagem em 12 vezes no cartão'

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2021 | 03h00

E agora, José? Quem é você depois da segunda dose? Como você acordou no dia seguinte? Ao se olhar no espelho percebeu alguma coisa diferente? No fundo dos olhos, na cor do cabelo, no tamanho da barba? Olhe pra trás, José. Acho que nasceu uma cauda em você. E agora, José? Já é hora de avisar que você é o mais novo jacaré na praça e que a esperança é uma sopa que se come quente – enfiando a colher bem no meio do prato fundo.

Não espera não, José. Vai fazer um check-up. Vai escutar o próprio coração e cortar o açúcar do café.

Mas ainda não, José. A máscara pode esperar. O lugar dela ainda é no rosto. No seu, hahaha, muito mais. Pra que tanto afobamento? Você é feio feito o diabo. Aproveita que ninguém tá te vendo e vai consertar esses dentes da frente. 

O que é isso, José? Separar da mulher? Não se precipite. Veja se ainda pode sentir a doçura do cheiro dela no travesseiro. É um cheiro de flor que não cresce por essas bandas, não é? Sua mulher é quase um jardim inteiro, José. 

Eu me empolguei, José. Tem uma beleza muito edificante nesses amores já meio cambaleantes e cansados de guerra. Gosto de amor com cara de pãozinho amanhecido, amor de anteontem, amor aquecido no micro-ondas da rotina. Você tem muita sorte, José.

Mas você é quem sabe, José. Aliás, sabe melhor do que eu. Só acho que nem tudo tem que ser derrubado ou implodido. Você pode se reconstruir no mesmo chão em que um dia caiu. Ou não. Também pode soprar a poeira amarela impregnada no seu jeans e seguir andando.

E agora, José? Segue andando com suas duas doses. Já dá pra visitar aquele amigo querido, levar as crianças no parque e começar a pagar aquela viagem em 12 vezes no cartão. Pega o carro e vai namorar sua mulher em algum lugar exótico. Ela gosta de praias desertas... acho. Palpite, José. Palpite...

Pensa, José. Eu só penso em bobagem mesmo. Mas você é um sobrevivente. Vai querer viver os próximos 20, 30 anos como se estivesse morto? Não, José. Junte-se aos seus e invente um segundo tempo melhor. Você é o cara.

Mas, ó José, se for largar a mulher, me avise primeiro. Acho que posso ser um bom padrasto para os meninos. Não faz essa cara. Só estou querendo ajudar.

Não seja mané, José. 

*Gilberto Amendola é repórter do Estadão e observador da vida urbana

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