É a vez da literatura brasileira no mercado editorial

De um lado, uma pequena pilha de livros de autores estrangeiros. De outro, uma pilha bem maior: a de lançamentos de obras de autores nacionais. A variação cambial, que aumenta tanto o valor do papel como os direitos autorais, convence os editores do País, especialmente os médios e pequenos, a investir em autores locais. A tendência faz inverter os números do mercado (hoje, cerca de 80% dos livros editados anualmente no Brasil são de escritores nacionais) e cria expectativa para a Bienal do Livro, que começa no mês que vem em São Paulo. O fenômeno já é notado nas livrarias - se antes títulos de autores estrangeiros dominavam as prateleiras, agora os escritores brasileiros ocupam mais visibilidade, chegando, em alguns casos, a ter mais destaque. E, se o detalhe só agora chama a atenção dos consumidores, a tendência é observada pelos editores há mais tempo. "Realmente, houve um esfriamento na aquisição de títulos estrangeiros", confirma Angel Bojadsen, diretor da Estação Liberdade e presidente da Liga Brasileira de Editoras, a Libre, que reúne empresas médias e pequenas. "Os motivos são principalmente econômicos." Com a crise cambial reiniciada em 1999, o mercado logo começou a sentir os efeitos negativos. Primeiro, o preço do papel importado disparou. E, em seguida, o valor dos direitos autorais. "O ponto de partida para qualquer negociação com os agentes são US$ 1 mil ou, dependendo do caso, mil euros", conta Bojadsen. "Mas, normalmente, os melhores contratos são fechados por quantias de, no mínimo, US$ 3 mil." Trata-se do primeiro valor desembolsado pelo editor que, depois de fechado o negócio, é obrigado ainda a encomendar a tradução que custa, em média, R$ 4 mil. "Depois, para a impressão da primeira tiragem são gastos outros R$ 8 mil para rodar 2 mil exemplares de um livro de 250 páginas." Com tanta dificuldade (o livro fica ainda em consignação com as livrarias, que só vão pagar depois de quatro ou seis meses), os editores começaram a buscar alternativas menos pesadas. A Record, que lança 25 títulos em média por mês, apresenta um histórico que acompanha as modificações do mercado editorial. Em 1995, quando Luciana Villas-Boas, diretora editorial da editora, assumiu seu posto, a Record oferecia um catálogo com 70% de títulos estrangeiros, a maioria americanos. E, entre os nacionais, destacavam-se medalhões como Graciliano Ramos e Jorge Amado. "Hoje, já são 50% para cada um e com uma variedade de autores nacionais da nova geração". Sucesso de Lya Luft Quando começou a editar os livros da escritora gaúcha Lya Luft, no ano passado, Luciana Villas-Boas, diretora editorial da Record, apostava em números expressivos, mas logo percebeu que estava diante de um fenômeno: a primeira edição de Perdas e Ganhos, de 3 mil exemplares, esgotou-se em poucos dias. O mesmo aconteceu com a segunda, agora de 20 mil. "Hoje, é o livro da editora que mais vende", constata Luciana, informando que Perdas e Ganhos chega à proeza de vender 4 mil exemplares por dia. "Nunca tivemos antes um título que ultrapassasse a marca de 50 mil por mês." A surpresa é compartilhada pela escritora que, com o novo livro, Pensar e Transgredir, já atingiu a marca de 60 mil exemplares vendidos em pouco mais de um mês. "Acho que escrevo o que as pessoas querem ler agora", arrisca-se Lya, que rejeita o rótulo de auto-ajuda para definir tamanho interesse. A estrutura, aliás, das duas obras não permite uma catalogação tradicional: não é romance, tampouco ficção ou mesmo um ensaio. "Talvez algo como uma auto-reflexão."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.