E a 'felicidade' veio da Ucrânia

Até agora o melhor filme, My Joy, de Sergei Loznitsa, tem título irônico para falar de realidade cruel

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2010 | 00h00

Impacto. O ucraniano Loznitsa, o primeiro de seu país a participar da seleção de Cannes, faz retrato devastador que fica nas bordas da ficção e do documentário

 

 ENVIADO ESPECIAL

CANNES

Da Ucrânia veio o filme mais impressionante deste 63.º festival. De repente, todos os demais concorrentes, por mais qualidades que tenham - os filmes de Mike Leigh, Abbas Kiarostami e do chadiano Mahamat-Saleh Haroun -, nem se compara a My Joy, Minha Alegria, embora o sentido mais exato, segundo o próprio diretor, seja Minha Felicidade. Você ouve histórias terríveis sobre a Rússia pós-comunista, controlada por mafiosos que herdaram o aparelho coercitivo do antigo regime. O filme de Sergei Loznitsa é sobre isso.

Ele é o primeiro diretor ucraniano a participar da seleção de Cannes, em mais de seis décadas de festival. Minha Felicidade é seu primeiro filme. Loznitsa era documentarista - seu filme se constrói nas bordas da ficção e do documentário, uma tendência que ultrapassa fronteiras e tem oferecido grandes momentos de cinema em diversas latitudes, inclusive aqui mesmo em Cannes (o filme de Jia Zhang-ke na mostra Um Certain Regard, I Wish I Knew, por exemplo).

Num certo sentido, pode-se dizer que Loznitsa segue um procedimento parecido com o de Takeshi Kitano, mas sem fazer cinema de gênero, como o autor japonês. Outrage está sendo o filme mais detestado pela crítica em Cannes 2010. O filme é sobre gângsteres que se entredevoram. Kitano não os humaniza. Os personagens buscam infligir o máximo de tortura e violência física ao outro. A violência não poderia ser mais gráfica, além de gratuita.

Os russos de Loznitsa também se entredevoram, e como animais selvagens, mas tudo faz sentido. Seu filme apresenta um retrato devastador do país. Começa com um corpo sendo encoberto pelo concreto e, depois, pela terra, para não deixar vestígios do crime. Prossegue com um caminhoneiro que dá carona a um estranho, que lhe conta, como, no final da grande guerra, ele teve de matar, tentando voltar para casa (e virou pária por isso). Sob o comunismo ou, agora, o capitalismo de Estado, a corrupção e a violência são as mesmas. Os personagens vão morrendo, sendo mortos, e as histórias se sucedem, no mesmo diapasão.

Sem fazer cinema de gênero, Loznitsa fez o grande filme de horror de Cannes neste ano. E My Joy é muito bem-feito. O autor assume a influência de Alexander Sokúrov, que se manifesta na sua maneira de utilizar o tempo e também nesse registro documentário com quer flagra tudo o que ocorre ao redor de seus personagens.

O festival já passou da metade. É tempo de começar a pensar em hipóteses de vitoriosos. Nas avaliações da crítica, os campeões são Mike Leigh (Another Year, com seis cotações máximas, entre 15) e Alejandro González-Iñárritu (Biutuful, com cinco). O francês Dês Hommes et des Dieux, de Xavier Beauvois, também está bem cotado, com quatro palmas atribuídas pelos críticos. A cotação do ucraniano deve aparecer hoje - o belíssimo filme de Kiarostami não teve uma (que fosse) palma, na cotação dos críticos. Não é por qualidades. Vamos ver como o presidente do júri, Tim Burton, vai se comportar em relação a Kiarostami e a Loznitsa.

Solidariedade a Jafar Panahi

Juliette Binoche chorou, não resistiu quando seu diretor em Copie Conforme, Abbas Kiarostami, falou na coletiva do filme sobre Jafar Panahi. O cineasta preso no Irã foi assistente de Kiarostami, que reclamou sua libertação. Criou-se um movimento de solidariedade ao diretor iraniano aqui na Croisette, preso há três meses por atividades consideradas hostis ao regime dos aiatolás. Anteontem, o próprio ministro da Cultura da França, Frédéric Mitterrand, leu, na escadaria do palais, uma carta contrabandeada por Panahi da prisão. Ele agradeceu ao presidente do júri, Tim Burton, que, na noite de abertura do evento, fez com que uma poltrona do palais ficasse vazia, à espera do amigo que não veio, Panahi.

O seu gesto está desencadeando todo tipo de debate. Burton vai se bater por uma palma política, militante? Considerando-se o perfil do diretor, a maioria da crítica se inclinava pela possibilidade de uma palma "estética". A resposta, no domingo. / L.C.M.

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