Imagem Lúcia Guimarães
Colunista
Lúcia Guimarães
Conteúdo Exclusivo para Assinante

É a demografia, estúpido

“Está na hora de imaginar Trump, em janeiro de 2017, de posse dos códigos nucleares.” 

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2015 | 02h00

A frase encerra o artigo de opinião de um membro do comitê editorial mais conservador de um grande jornal americano, o do Wall Street Journal. Trump tinha passado uma hora e meia com os membros do comitê e usou a ocasião para expor o que imagina ser uma plataforma econômica – deixou claro que não ouve economistas, o que já deu para perceber.

O dono do Wall Street Journal é o mesmo Rupert Murdoch que patenteou o Fla-Flu contemporâneo em cobertura política com a rede Fox News. Devemos a Murdoch um numeroso elenco de extremistas de direita, obscurantistas anticiência, demagogos cristãos e louras pneumáticas que recitam com expressão de robô todo tipo de preconceito contra minorias. O criador e ainda hoje o feitor na Fox, Roger Ailes, acostumado a ter a mão beijada por qualquer pretendente republicano a cargo eletivo local ou nacional, fingiu passar um pito em Trump em agosto, quando ele partiu para cima de sua loura mais valiosa, a âncora Megyn Kelly. Mas o canal Fox ainda oferece amplo espaço para o histrionismo sem limites do homem que há meses lidera as pesquisas a caminho das primárias eleitorais. Como o próprio Trump se adianta para deixar claro, ele dá audiência.

Um debate no establishment republicano tornado órfão pelo carisma negativo de seu ungido inicial, Jeb Bush, é expressado pela mensagem na conclusão do editorial do Journal: é hora de imaginar o palhaço que deixamos animar o circo de mídia transformado em mestre de cerimônias. A conclusão sugere resignação, mas contém a provocação: vamos deixar este homem avançar, desimpedido?

Se qualquer republicano com pedigree ouvisse, no dia seguinte à reeleição de Barack Obama, em 2012, que uma figura como Trump poderia estar instalado no Salão Oval, de posse dos códigos nucleares, em 2017, teria que ser reanimado com sais. O campo extraordinariamente fraco de candidatos republicanos, ao final de dois mandatos de um democrata, quando o instinto do eleitor americano é apostar em mudança, mostra que o partido pouco aprendeu com a derrota de 2012. O esforço de explicar a derrota incluiu um relatório de quase cem páginas ordenado pelo presidente do partido, Reince Priebus, sob o título Projeto de Crescimento e Oportunidade. O relatório fazia uma autocrítica do partido por favorecer ricos em prejuízo de trabalhadores, alienar minorias, demonstrar rigidez ideológica e sufocar dissidência.

Quando Barack Obama chegou ao poder em 2008, 46% dos americanos se declaravam conservadores. Hoje eles são 37%. Então, por que o Partido Republicano apresenta extremistas de colete suicida como Ben Carson e Ted Cruz? Estas figuras polarizadoras representam, sim, seus eleitores. O problema é que os estados controlados por republicanos abrigam apenas 25% da população americana. A falta de um centrista com chances como o Mitt Romney de 2012 reflete uma insatisfação crescente deste um quarto da população com o fracasso de seu partido em conter o avanço de Obama.

Mas não se trata de um Partido Democrata com a fórmula eleitoral mágica. O partido se beneficia de uma grande transformação demográfica nos Estados Unidos.

Vejamos: em 2012, cerca de metade do eleitorado era formado de minorias, mulheres solteiras e millennials, os que têm de 18 a 35 anos. Em 2016, o mesmo grupo representará 63% dos eleitores. São eleitores que voltaram a encher as cidades, são menos religiosos e menos apegados a campanhas baseadas em moralidade e costumes. Em Nova York e Los Angeles hoje, 40% da população residente não nasceu nos Estados Unidos. Em Miami, são 63% e 16 candidatos se engalfinham para ver quem é mais anti-imigrante!

Este ponto de virada populacional é explorado num novo livro, America Ascendant, escrito por um veterano estrategista político, especializado em análise de pesquisas. Stanley Greenberg é democrata, mas presta consultoria a clientes dos dois partidos e conta que seus interlocutores republicanos compreendem o significado da transformação em curso. Ele não acredita mais que possa valer para os republicanos, em 2016, o senso comum que governou as eleições anteriores – polarização durante as primárias e centrismo na eleição geral. O bloco dominante e mais vocal hoje entre os eleitores republicanos é o dos conservadores sociais, gente que vê em Jeb Bush um picolé de chuchu.

Este entrincheiramento no passado, diz Greenberg, é também uma reação a transformações econômicas que resultaram de novas tecnologias, seja na revolução digital, seja na produção de energia. O eleitor obcecado com reprodução feminina, invasão de estrangeiros ou seu direito de portar arma automática não é exatamente o candidato ideal para preencher vagas de emprego no Google ou numa startup de energia solar.

A demografia vai se encarregando da demagogia. 

Tudo o que sabemos sobre:
crônica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.