DZI rumo ao Oscar

Diretores fazem vaquinha para documentário concorrer ao prêmio

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

"Ajude o Dzi a ir para o Oscar." Assim os diretores Tatiana Issa e Raphael Alvarez convocam a comunidade do Facebook para colaborar para seu mais novo objetivo: classificar Dzi Croquettes, o documentário brasileiro mais premiado da história, a concorrer a uma vaga ao Oscar da categoria em 2012.

Por regra, ao contrário dos longas estrangeiros, documentários de qualquer nacionalidade podem concorrer na categoria. Já "por ajuda" entenda-se investir de US$ 1 a "quanto quiser" para arrecadar US$ 23 mil, suficientes para conseguir atender as exigências. "Isso significa colocar o filme em cartaz por uma semana em Nova York e Los Angeles, com, pelo menos, três sessões por dia, anúncio no New York Times e nos jornais de Los Angeles. Para entrar em cartaz em uma sala de cada cidade custa US$ 11 mil. Serão, então, US$ 22 mil. O restante, US$ 1 mil, será para os anúncios", explica Tatiana, de Nova York, onde mora. O inédito é que a ajuda virá por meio de um site, ou uma plataforma online, de financiamento de projetos culturais: o KickStarter. "Cada um que entra na página do filme pode doar quanto quiser. Em troca, ganha brindes, DVDs, camisetas do filme."

Se até 24 de agosto Tatiana e Alvarez não conseguirem mobilizar seus fãs e amigos a apostarem no projeto, todo o dinheiro arrecadado volta para os "investidores". "Este é o bacana do Kickstarter. Quem investe declara sua intenção. Só é debitado se chegarmos aos US$ 23 mil. Se não, ninguém perde dinheiro", explica a diretora, que, até na sexta, já havia levantado US$ 8 mil. "Houve quem desse até US$ 1 mil. Mas, diante do pouco tempo, é pouco. Será incrível se conseguirmos. Estamos pensando em colocar o Brasil cada vez mais no mapa do cinema mundial. Ainda que moremos nos EUA, o filme é sobre nossa história e foi finalizado com investimento do Canal Brasil."

Dzi Croquettes conta a trajetória do grupo carioca que mesclava dança e teatro e marcou o cenário artístico nos anos 70 com sua irreverência, humor e impacto visual.

Além do inusitado da ação - afinal, já para a fase de produção, iniciativas como esta praticamente inexistem no mercado brasileiro - , a ideia é inédita no mundo. Produtores e diretores inscrevem projetos para filmar e não para estrear no Kickstarter. Não por acaso, os diretores foram procurados pela imprensa americana. "Fizemos o filme com nada, ou seja, com nosso próprio orçamento. Juntávamos milhas para comprar as passagens aéreas... Este filme existe porque acreditamos nele."

Mais que uma ideia inusitada, a iniciativa dos diretores sinaliza para uma mudança que já começa a ocorrer no mercado cultural nacional. "No Brasil, há quase vergonha de pedir dinheiro para financiar filme, peça, show. Ou se investe pessoalmente, ou se financia por meio das leis de incentivo. Investimento direto privado, como ocorre nos EUA, existe, mas é raro. "Vaquinhas" como do Kickstarter então, praticamente não há", comentam os diretores. "É só mais uma forma criativa de viabilizar. Eu e Rafa trabalhamos muito para conseguir cada centavo para realizar o filme. Eu fui garçonete, ele foi bartender. É claro que é bom ter infraestrutura. E estamos caminhando para isso na Tria, nossa produtora. E não é só porque não temos uma produtora linda que não podemos fazer um documentário de qualidade. O dinamismo e a valorização do trabalho do realizador fazem toda a diferença."

De fato. Quando teve a ideia de contar a saga do grupo performático que ajudou a revolucionar os costumes em plena ditadura militar, tudo o que Tatiana queria era também contar sua própria história. Com paciência e insistência, realizaram um documentário que foi exibido em centenas de festivais em 55 países, premiado em dezenas deles. Como uma de suas maiores testemunhas, está a atriz Liza Minelli, amiga pessoal de Lennie Dale, líder do Dzi. A atriz ainda não assistiu ao filme. E parte da estratégia dos diretores é também poder contar com sua ajuda na campanha. "Só não mandamos ainda o DVD para ela porque queremos colocar o filme no cinema. Se ela assistir, além de chamar a atenção dos americanos, poderá nos ajudar a disputar o Oscar. Sei que pode soar demais. Mas tudo o que temos que fazer é tentar."

QUEM É

TATIANA ISSA

DIRETORA E PRODUTORA

Filha de Américo Issa, cenógrafo do Dzi Croquettes, Tatiana, que conviveu com o grupo na infância, achava que eles eram palhacinhos. Aos 7, iniciava sua carreira de atriz; ao 9, já trabalhava na TV. Morou em diversos países e hoje vive em Nova York, onde fundou com Raphael Alvarez a produtora Tria. Decidiu realizar Diz Croquettes para também resgatar sua memória de infância e "porque era um absurdo que as novas gerações não conhecessem os Dzi". Entre dezenas de prêmios que recebeu, foi eleito o melhor documentário no Festival do Rio segundo o júri popular e oficial. Atualmente, se prepara para rodar um documentário sobre o cartunista Otto Guerra.

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