Dylan entre quatro paredes

FOLK

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

BOB DYLAN

BOOTLEG SERIES VOL. 9 - THE WITMARK

DEMOS 1962-64

Sony. Preço: R$ 94

ÓTIMO

O manto profético que encobriu Bob Dylan quando Blowin" in the Wind virou trilha sonora dos protestos em prol dos direitos civis, nos Estados Unidos, em 1963, ajudou a ofuscar boa parte da evolução estilística pela qual o artista passou nos anos em que foi de lenda underground do folk a porta-voz de turbulências culturais. A história conhecida é a do menino judeu dos rincões do Minnesota que se mudou para Nova York para visitar seu mentor, Woody Guthrie, no hospital. Passou a fazer música de protesto, foi coroado pelo mundo como o jovem messias do folk e, alguns álbuns depois, ao enveredar pelo rock "n" roll, deu uma banana para os fãs e puristas que o consideravam a salvação da música popular. Mas a história é mais complexa e seus detalhes são revelados em Bootleg Series Vol. 9 The Witmark Demos: 1962-1964, gravações-demo feitas para as editoras Leeds e Witmark, entre os anos de 1962 e 1964. Além das contundentes releituras de canções populares que Dylan fez em seu primeiro disco, Bob Dylan, de 1962, poucos registros capturam tão bem o amplo leque de influências (do delta blues a Rimbaud) que se fundiu durante o processo de transformação que deu origem à voz esganiçada e à poesia de Dylan - esta, de forma brilhante, já incorporava sofisticação lírica a crônicas do cotidiano rural.

O disco, duplo, mostra um Dylan determinado a absorver a tradição musical americana. Sua intenção rebelde evoca Guthrie. Seus dedilhados reluzentes respiram a tradição do violão folk e transitam nas fronteiras entre o blues de raiz. Ao longo das 47 canções, uma sensação de intimismo brota quando se ouve bater a porta do quarto de gravação ou quando Dylan interrompe por ter se esquecido da letra. Isso torna ainda mais arrebatador o efeito de algumas das pérolas.

Tomorrow Is a Long Time, uma de suas canções mais reinterpretadas - porém nunca gravada por Dylan em estúdio - é entoada com uma melodia exuberante, acompanhada de letra que reflete sobre o passar do tempo. É uma obra estarrecedora cuja profundidade e maturidade são espantosas para um músico que havia ainda de completar seus 24 anos. Masters of War, uma das canções de protesto mais dilacerantes já escritas, assim como versões-rascunho de Mr. Tambourine Man e Blowin" in the Wind dão o recado: Dylan está endiabrado e o ar do quartinho de gravação vibra com a efervescência de sua fase mais prolífica.

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NEW YORK CITY

Artista: Leadbelly. Álbum: Take This Hammer. Gravadora: Sony.

Preço: R$ 25.

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