Dylan, Ella e Mário Reis: novo lote da onda de tributos

Entre CDs ao vivo e de duetos, saem no País discos que homenageiam os cantores

Agencia Estado

27 Junho 2007 | 14h12

Concorrendo com os insossos CDs ao vivo e de duetos - todos recheados de velharias batidas -, o mercado também tem se alimentado de álbuns tributo. Alguns são bem realizados e fazem bem à memória; outros, oportunistas, só servem para reforçar a mesmice ou assassinar temas preciosos. Em lotes recentes, além dos jobims e buarques de praxe (que preguiça...), diversos intérpretes revisitam o cancioneiro de Joni Mitchell, Bob Dylan, Ella Fitzgerald, Ennio Morricone, Mário Reis e Maysa. Nada contra regravar canções. João Gilberto e Ella Fitzgerald, diversas vezes, aprimoraram clássicos até chegar a resultados satisfatórios. Elis Regina, Gal Costa, Ney Matogrosso Caetano Veloso, Grupo Rumo e Maria Bethânia em outras épocas, como, por exemplo, faz Marisa Monte hoje, foram responsáveis por passar, de maneira honesta e criativa, obras-primas para o público da geração deles, que, de outra forma, não as ouviriam. Além da interpretação, algumas regravações tratam de aprimorar arranjos e sonoridades que ficaram datadas. Bryan Ferry Bem ou mal, o Guns’N Roses jogou Dylan na roda, embora poucos dos fãs reconheçam a autoria de Knockin’ on Heaven’s Door, mas aí é outra questão de ordem cultural. Quem gosta de Chitãozinho & Xororó morrerá afirmando que No Rancho Fundo é da dupla, sem desconfiar que isso vem de Ary Barroso e Lamartine Babo. Madonna que mutilou American Pie (Don McLean), com o megahit Ray of Light, tirou do limbo Sepheryn, de Curtis & Maldoon, na irreconhecível e irresistível mutação. Expert em bons covers é Bryan Ferry, que lançou Dylanesque (EMI), dedicado a Bob Dylan. O ex-Roxy Music, que abriu o primeiro trabalho-solo, These Foolish Things, de 1973, com A Hard Rain’s a-Gonna Fall, já não tem aquela voz, mas realiza um tributo coerente, sem grandes invenções. Optou por equilibrar clássicos evidentes como Knockin’ on Heaven’s Door e All Along the Watchtower com belezas menos desgastadas como Positively 4th Street e Gates of Eden. É difícil superar a impressionante versão de Richie Havens para The Times They Are a-Changing, mas Ferry até convence. A Tribute to Joni Mitchell (WEA) tem um repertório de músicas nobres da autora e reúne grandes nomes do pop, como o genial Sufjan Stevens, que abre o CD com Free Man in Paris, Prince (A Case of You), Annie Lennox (Ladies of the Canyon), Cassandra Wilson (For the Roses), K.D.Lang (Help me). Cada um no próprio estilo, os intérpretes têm em comum a opção pela sutileza nos arranjos e vocais. Por mais exótica e excêntrica que Björk possa parecer, ela trata The Boho Dance com esmero. O estranho nesse ninho é Caetano Veloso, que fez de Dreamland um samba-reggae, destoando do resto. ´Ella´ é bom Mais esquisito é quando um intérprete se propõe a recriar o repertório de outro. Nesses casos, muitas vezes, a "homenagem" é pura picaretagem de gente que quer montar na fama alheia. Como substituir uma voz como a de Frank Sinatra por qualquer outra que seja? Talvez, valha a intenção, mas quem disse que Sinatra precisa desse tipo de cortesia? O que dizer, então, quando se propõe a reverenciar a voz imensa e inigualável de Ella Fitzgerald (1917-1996)? É natural que se fique com um pé atrás, mas a surpresa é que We All Love Ella (Universal) é bem bom. Ao contrário do saco de gatos que é We All Love Morricone (SonyBMG), o de Ella tem unidade na maior parte. Bem conduzido pelo produtor Phil Ramone, o álbum reúne grandes vozes femininas (a maioria da soul music), como Chaka Khan, Natalie Cole, Queen Latifah, Dianne Reeves, Lizz Wright, Gladys Knight, Etta Jamez, Linda Ronstadt, K.D.Lang. Stevie Wonder (em dueto com Ella em You Are the Sunshine of My Life) e Michael Bublé são presenças masculinas isoladas. A maioria se dá bem em temas antológicos como Dream a Little Dream of Me, Reaching for the Moon, A-Tisket, A-Tasket e Lullaby of Birdland. Da grande voz da primeira-dama da canção para a pequena (mas não menos expressiva) do precursor do estilo cool da Bossa Nova, tem o álbum Quando o Samba Acabou - Dedicado a Mário Reis (Lua Music), do paulista Carlos Navas. Embora mantenha a sutileza e a elegância do inspirador do projeto, Navas tem como primeiro mérito evitar copiar o estilo de Reis (1907-1981). O desafio da era digital Há também um cuidado nos arranjos, de instrumentação mínima, que valorizam a interpretação e, naturalmente, as melodias e letras de grandes canções da virada dos anos 20 para os 30. O CD abre com Filosofia (Noel Rosa-André Filho) e é inevitável comparar com as conhecidas regravações de Chico Buarque e Mart’nália. Os melhores trunfos de Navas vêm a seguir, como o obscuro samba Sabiá (Sinhô). No mais, é um bom pretexto para ouvir outros clássicos de Noel, Sinhô e Ismael Silva. O bom é que na era digital tudo vem à tona. Muito do que se regrava está disponível no original em CD ou MP3. Os blogs estão lotados de versões completas de LPs que nunca saíram em CD digitalizados e livres de chiados e estalos. Além do mais, os jovens que descobrem as coisas têm preferido ir direto à fonte. Pra que perder tempo com a "atualização" funk-marqueteira de Lulu Santos para Deixa Isso pra lá (Edson Menezes-Alberto Paz) se a gravação original de Jair Rodrigues é melhor e está viva nas festinhas e pistas por aí? Portanto, regravar hoje tem um desafio comparativo maior pra encarar. Em contrapartida, é um deleite ouvir, por exemplo, o que o Soulsavers fez com No Expectations, dos Rolling Stones; ou as Puppini Sister com Panic, dos Smiths, no brejeiro álbum Betcha Bottom Dollar. Patti Smith arrancou do incensado Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a faixa mais obscura, Within You, Without You (George Harrison) e arrebentou. Chamar isso de cover é uma ofensa. Mas não é para qualquer um: tem de ter propriedade para fazer valer.

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