Dyer e Sullivan: a arte do ensaio segundo dois ilusionistas

Ambos concordam que é o gênero que mais funciona entre amadores, por exigir do autor um compromisso menor com o rigor acadêmico e permitir a ele maior liberdade criativa

ANTONIO GONÇALVES FILHO, ENVIADO ESPECIAL / PARATY, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2013 | 02h09

A arte do ensaio moderno tem pouca relação com a forma tradicional do gênero. De Montaigne ao norte-americano John Jeremiah Sullivan e o inglês Goeff Dyer existe não só um abismo de séculos, mas de conceitos. Os dois participaram ontem da penúltima mesa de debates da 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que teve como mediador Paulo Roberto Pires, editor da revista Serrote. Os dois concordaram que o ensaio é o gênero que mais funciona entre amadores, por exigir do autor um compromisso menor com o rigor acadêmico e permitir a ele maior liberdade criativa.

Dyer, por exemplo, acaba de lançar pela Companhia das Letras, mesma editora de Sullivan, o livro Todo Aquele Jazz, em que recria a vida de grandes músicos como Lester Young, romantizando um pouco sua trajetória. Já Sullivan, que também escreve em Pulp Head sobre um músico, Michael Jackson, entre outros temas, o faz menos como um romancista e mais como jornalista.

Tipicamente, observou Dyer, os melhores ensaios "partem da ignorância total sobre o assunto para a descoberta, um processo epistemológico em que ela ajuda mais que o saber tudo a respeito do tema, caso de eruditos como Gore Vidal e Christopher Hitchens". Dyer admite que seu Todo Aquele Jazz foi produzido como um improviso, de forma experimental. Ele comparou-o ao teste que mineiros fazem com canários para ver se sobrevivem ao gás subterrâneo, antes de entrar nas minas. Essa história de mineiros levou a discussão para o território da política, fazendo com que Dyer evocasse George Orwell, que se assumia como panfletário. Já Dyer disse não ter "nada político" para exprimir em ensaios. Tampouco Sullivan que, mesmo tendo escrito sobre o Tea Party, não vê a possibilidade de se alinhar a Orwell e Hitchens. É mais certo que ele se assuma como ficcionista no futuro.

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