DVD faz justiça à obra de Brian De Palma

Seria preciso um dia se referir com mais atenção que o habitual ao cinema muito cultuado mas nem sempre compreendido de Brian De Palma. Talvez sua recusa por uma expressão dita realista não seja outra coisa, como já se disse, que uma alucinada - e muito rejeitada - procura de identificação com a realidade. Tudo se passa, no entanto, como se houvesse uma - muito falsa - dicotomia entre um mundo de ficções e a outra vocação evidente do cinema pela realidade. Antes de um afastamento, trata-se aqui da busca por outros caminhos. É o que parece nos dizer o cinco estrelas Um Tiro na Noite (Blow Out), ainda hoje considerado por muita gente - e não por acaso - o supra-sumo de seus filmes, que acaba de chegar às locadoras em DVD.Nada mais oportuno. Tanto melhor se lembrarmos que para setembro estão prometidos os lançamentos de Síndrome de Caim e A Fúria - e então serão 14 (nada mal!) os filmes assinados por De Palma a serem editados em DVD no Brasil (número já próximo dos lançados em VHS). Uma bela amostragem e uma bela maneira de apreender seu cinema. Restaria esperar a chegada de Femme Fatale (ainda sem previsão) aos cinemas daqui.Mas fiquemos, por enquanto, com Um Tiro na Noite. Resumir seu enredo seria correr o risco de fornecer uma imagem um tanto reduzida do filme. Logo, passemos ao essencial. Jack (John Travolta, no papel de sua vida) é um sonoplasta às voltas com os efeitos de mais um filme de terror barato - dado banal, poderia-se imaginar, não soubéssemos que De Palma pensa o cinema para falar do mundo, ou antes pensa os dois (cinema e mundo) como uma coisa só.Vale dizer que se as aparências enganam, como manda o senso comum, De Palma, por seu lado, acredita que não necessariamente, uma vez que a única possibilidade de conhecimento do cinema - "arte das aparências" - se dá com a captação da superfície (isto é, a imagem) dos seres e objetos. Nesse sentido, explica-se sua profunda sintonia existencial com o mestre Alfred Hitchcock, como também compreende-se um pouco melhor a raiz dos mal-entendidos sobre a obra dos dois.Não é exatamente a maior das surpresas, portanto, quando passamos de uma situação assistida na tela para outra, vivida de fato. As regras do suspense estão dadas desde o início - resta potencializá-las ao máximo. Pois é o que se vê na seqüência: ao gravar, muito por acaso, o som do suposto acidente de carro em que morre um dos candidatos à presidência, Jack torna-se uma espécie de homem que sabia demais. A partir daí, é estabelecido como que um jogo entre duas versões opostas da mesma história: uma que parece e outra que é.Momento mágico - Cabe a Jack - e ao espectador, pois para De Palma não há contemplação ou passividade - construir a melhor versão com os dados palpáveis: o registro sonoro de um estouro de pneu (daí o blow out do título original) ou de um tiro, algumas fotografias (havia no local também um câmera, o que, veremos adiante, não é tão arbitrário quanto "parece") e o testemunho um tanto titubeante de Sally (a ótima Nancy Allen), acompanhante do candidato naquele momento.Daí que surge a cena mágica do filme - belo aceno à la Antonioni (lembremos de Blow Up, inspiração, digamos, fotográfica para De Palma) e Coppola (o do pouco comentado A Conversação) - quando, à maneira de um diretor de cinema, Jack recompõe esses dados fragmentários como se fossem fotogramas de um todo, um filme.Desde o início, é através do trabalho de Jack que se insinua ao espectador toda uma verdadeira pedagogia do/pelo olhar - a manipulação, os efeitos, a produção de sentidos - que irá perpassar todo o filme. Trata-se de fazer de Um Tiro na Noite uma espécie de metacinema que ensina a ver de outro modo, e não apenas o cinema, mas antes talvez a "civilização da imagem" em que vivemos, tudo em função de um exemplo bastante concreto (as ressonâncias com a história americana das décadas de 60 e 70 é evidente e notável).Assim, por exemplo, quando vemos/ouvimos Jack gravando sons de trovão durante o telejornal que fala das eleições já podemos esperar algo de soturno por acontecer, da mesma maneira que o split screen (isto é, o recurso de dividir a tela em duas imagens, tão caro a De Palma) na mesma cena, com uma imagem em Travolta com seus efeitos de som e outra no telejornal, nos revela certa, digamos, falsidade desse último. Assim contado, Um Tiro na Noite pode parecer mais astucioso do que de fato revelador - em todo caso, muito mais do que um competente esteta que De Palma inegavelmente é, aqui ele se revela um mestre dos artifícios de linguagem como comentário à ação.Lembremos, à guisa de argumento final, de um dado crucial no filme, a maneira como se rompem as barreiras do coletivo e do individual, do político e do privado: não é senão Sally (figura feminina bela, hesitante e sempre em perigo) que, aos poucos e muito sutilmente, irá simbolizar tanto a liberdade de Jack (que irá se apaixonar), como a de todo um país (pois só ela pode ajudá-lo a desvelar a versão oficial). Nesse sentido, o desfecho é um dos mais radicalmente pungentes que se já viu.Em tempo: com a presente edição em DVD, Um Tiro na Noite finalmente poderá ser (re)visto por uma nova geração de espectadores no formato widescreen (a fotografia em panavision de Vilmos Zsigmond é belíssima) e sem cortes. Isto é, como se deve. Logo explicamos: o VHS até então disponível na praça era um grande exemplo da falta de respeito dos distribuidores pela integridade da criação. Uma comparação rápida revela que, já na seqüência de abertura, os cortes são muitos - de 45 segundos chegamos no disco digital a mais de 3 minutos! - e também no enquadramento - a telecinagem no vídeo antigo não se limitou a colocar em quadro o centro dos fotogramas, mas de fato refez a fotografia do filme. Trata-se, sem dúvida, do trabalho de algum puritano hipócrita - os cortes (de tempo e de imagem) são quase todos em cenas de nudez.

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