DUVIDAR E APAGAR

A pintora Marina Saleme questiona o protagonismo da figura em mostra

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2013 | 02h08

Indagações constantes se colocam com a obra da pintora Marina Saleme - qual a real existência das coisas? A figura está ou não presente? Até que ponto se pode experienciar o apagamento? Na exposição que a artista inaugura amanhã na Galeria Luisa Strina, vemos esses questionamentos através de pinturas (duas de grande formato), fotografias (feitas com celular) e de 150 pequenas obras em técnica mista que formam dois painéis nos quais uma narrativa sobre perda, morte, abandono e paixão "acontece mais pela acumulação ou insistência das mesmas imagens", como diz a artista, e não por uma decisão deliberada.

"Meus trabalhos nunca são totalmente abstratos", diz a pintora paulistana, nascida em 1958. Na mostra Figurantes, Marina Saleme explora sentidos poéticos sobre o protagonismo da figura em trabalhos realizados nos últimos três anos. Mas as obras reunidas na exposição guardam também, como é usual, a lentidão velada de seu processo criativo.

A extensa série de 150 pequenas obras, intitulada Garotas (As Descabeladas), remete a uma sequência de páginas de um livro de contos pregado em duas paredes da galeria. Criados entre 2009 e 2011, esses trabalhos feitos sobre lona, com formato de cerca de 40 cm X 30 cm, nasceram de um exercício espontâneo de pintar e desenhar diminutas e diluídas cenas com uso de óleo, acrílica, lápis e até do bordado. Um caráter intimista se estabelece nessas obras, nas quais Marina explora várias formas de apagamento da imagem e recorre a uma paleta diversificada.

A pintora joga com a repetição e anulação de figuras - as femininas prevalecem - ao longo dos pequenos trabalhos. Na narrativa que surge, mulheres sofrem - "puxam seus cabelos", "estão desesperadas". Por vezes, grupos de pessoas são representados como que velando mortos. E há ainda o casal apaixonado; ou "a solitária e o solitário", deitados sobre ilhas. Marina conta que preferiu usar lona a papel justamente porque o material permitiria uma experimentação pura. Possibilitaria "resistência às várias investidas" de técnicas diversas.

Mas a pintura de grande formato de Marina Saleme, por excelência e força, não poderia ficar ausente da exposição. É necessário ressaltar que a série com as 150 pequenas obras funcionam em grupo. Já as duas telas maiores, com escala aproximada de 1,90 m X 2,20 m, promovem um arrebatamento frontal entre obra e espectador. Uma das pinturas é uma paisagem, que representa uma larga área de água, feita com a mistura pulsante de azuis e verdes turquesas, entre um pedaço de terra, morros e o céu. A outra tela é uma composição de fundo verde claro em que duas figuras aparecem como que "encobertas por mantos" (quase abstratas, uma recorrência em sua produção) e ao lado de uma estrutura de linhas vermelhas.

Ao mesmo tempo, a fotografia marca seu lugar na mostra Figurantes. Marina Saleme diz ainda não saber precisar o lugar do gênero fotográfico em sua obra. "Me interessa uma imagem que faça sentido na minha poética", afirma a artista. Na série Sweet Home, de 2013, ela registrou a descoberta inusitada de estruturas metálicas durante uma caminhada na praia. Formal e metaforicamente, o elemento se transformou na imagem de esqueletos, "ossada mesmo", na natureza. Já as imagens de O Passeio, feitas em Viena, captam árvores encobertas por sacos de café em pleno inverno. "Elas pareciam as figuras que sempre apareceram nas minhas pinturas", constata Marina.

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