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Dúvida: amávamos Jean Seberg ou Godard?

'Acossado', o mítico filme de Godard, para a minha geração foi, acima de tudo, a atriz

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2018 | 02h00

PÓVOA DE VARZIM, PORTUGAL - Neste momento, estou nessa cidade vizinha ao Porto, participando da 19.ª Correntes d’Escritas que, neste ano, homenageia Luis Fernando Verissimo. Foi uma emoção fazer a conferência de abertura diante de 90 escritores de línguas portuguesa e espanhola e, em seguida, o show Solidão no Fundo da Agulha, com Rita Gullo, minha filha, e o violonista Edson Alves. Música e literatura nessas Correntes que estão chegando aos 20 anos.

Voltarei a esse assunto, porque hoje quero falar de um impacto que tive aos 24 anos. Enorme. Faz uma semana que a Zeta Filmes trouxe de volta a São Paulo o filme Acossado (À Bout de Souffle), 57 anos após seu lançamento. Vou esperar para ver as reações dos jovens de hoje, ou mesmo daqueles que estão nos 50 ou 60. O que ainda pensam?

Acossado, o mítico filme de Jean-Luc Godard em 1960, para a minha geração foi, acima de tudo, Jean Seberg, a jovem americana (la petite américaine, como anunciava o trailer) que vendia o jornal New York Herald Tribune pelas ruas de Paris e se apaixonou por um bandido, Jean-Paul Belmondo. Aquele jornal - criado pelos republicanos americanos em 1924 - não existe mais na cidade, agora se tornou o The International New York Times. Ficamos vidrados em Jean, estrela cult da noite para o dia após o filme. Para nós era bonita, sensual, fascinante, tinha carisma, inteligência, era a mulher que queríamos ter ao nosso lado. Ela derrubava o mito da superstar americana, voluptuosa, exuberante, exibida, misteriosa, fatal.

Era a jovem que nos acompanharia nas aulas da faculdade (não eu; não fiz faculdade, mas trabalhei no jornal que mais empregava mulheres na cidade), com quem no bar ou café discutíamos filmes-cabeça, feminismo e política, eram as que iam para a cama, nos acompanhavam ao teatro político, brigavam pela liberação, liam Simone de Beauvoir.

Caímos aos pés de Jean Seberg. Havia no nosso grupo uma jovem que era a cara dela, igualzinha, linda, a Camila Mendes de Almeida, morta durante a ditadura. O certo era pronunciar o nome inglês da estrela, Jin Siberg, mas dizíamos seu nome à francesa, afinal foi Paris que a consagrou. Víamos e revíamos o filme apenas para amá-la, sonhar, ficar com ela. Era uma paixão erótica/esquisita, suave, podíamos deitar ao lado dela e vê-la dormir sem tocá-la, uma estranheza que fica para o Contardo Calligaris destrinchar. Amei de maneira diferente as inacessíveis Rita Hayworth, Ava Gardner, Ingrid Bergman, Claudia Cardinale, Silvana Mangano, Brigitte, Jane Fonda. Assim também amo de outro modo Penélope Cruz, Giulietta Masina, Monica Vitti, Julianne Moore, Patricia Pilar e Elizabeth Moss.

Acossado mexeu com todos nós que frequentávamos a Cinemateca, o cine Coral, víamos as peças do Arena e do Oficina, líamos Sartre, Simone, Camus, Karen Horney, Brecht, Kerouac, usávamos jeans, buscávamos o Suplemento Literário do Estadão e o Caderno B do Jornal do Brasil. Estava ali um filme novo que poderia ou deveria ter sido feito por um de nós, transgressores (ao menos assim nos imaginávamos), socialistas, rebeldes, beats. Estávamos a favor de tudo que fosse não careta, não podre como a política, trouxesse um cheiro moderno, tudo que rompesse a rotina, a chatice, o formalismo, a gravata, o terno. Godard virou Deus. Belmondo, nosso herói, marginal, antistablishment, se lixando para tudo e todos. Mais tarde, entendi que O Bandido da Luz Vermelha, 1968, era tão bom quanto Acossado.

Godard chegou na frente, abriu caminho para Sganzerla e Glauber Rocha, Joaquim Pedro e outros. A câmera de Raoul Coutard com travelings feitos não em gruas sofisticadas (como víamos no cinema hollywoodiano), mas sim câmera na mão em uma cadeira de rodas, permitia uma liberdade excepcional. Incrível, há uma cena que dura 26 minutos diretos em um quarto de hotel. O cinema se desfazia do pesado, das travas, dos estúdios sufocantes, respirava nas ruas, praças, elevadores, libertavam-se atores, diretores, fotógrafos, cenógrafos, todos. Todo mundo podia fazer cinema. Não era bem assim. A maioria não fez, mas a liberdade tinha chegado. Os que hoje fazem filmes até com celular, devem algo ao grito de Godard e seu fotógrafo Coutard: “Cortem as amarras. Façam como querem, sabem fazer”. Bem, há quem queira, mas não sabe.

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