Duro teste: maestro precisa correr contra o relógio

A Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal vive desde 2008 uma situação kafkiana: os dois maestros que se sucederam em sua direção pouco têm a ver com ópera, a vocação original da orquestra do Teatro, concebido para essa finalidade em 1911. A nomeação de Abel Rocha como diretor artístico - e não apenas como maestro titular - pode corrigir esse erro fundamental. Afinal, uma orquestra de ópera deve ser entregue a um maestro com experiência em... ópera.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2011 | 00h00

Mas o Municipal é uma caixa permanente de surpresas. Nunca se sabe o que pode acontecer. Rocha terá poder para construir uma programação digna do centenário do Teatro, que ocorrerá daqui a poucos meses, em setembro? sDs, como abreviam os twiteiros (só Deus sabe). Nos últimos três meses, deu pena ver um músico extraordinário como Alex Klein, uma espécie de Ronaldo do oboé, fazer papel ridículo anunciando uma idiota série Municipops, arremedo da Boston Pops. Posou de diretor artístico e foi publicamente contestado até nisso.

Um rápido olhar pelas aventuras dessa orquestra tão querida pelos paulistanos na primeira década do século 21 basta para avaliar como será difícil a missão de Abel Rocha. Apenas em quatro desses dez anos, as coisas funcionaram bem. Quem hoje se encanta com o reinado único da Osesp deve lembrar-se de como é possível, mesmo sem um orçamento fabuloso, fazer-lhe sombra. Pois Ira Levin, titular entre 2002 e 2005, fez uma sombra danada à Osesp de Neschling, com repertórios tão atraentes quanto os da Sala São Paulo. A orquestra recuperou a autoestima, firmou-se com concertos de qualidade.

Mas nos últimos seis anos a instabilidade retornou. O regente José Maria Florêncio (2005 e 2008) jamais disse a que veio; manteve a orquestra escondida da opinião pública. Seu assistente Rodrigo de Carvalho, no cargo desde 2007, assumiu interinamente. Tentou marcar sua passagem com uma gravação medíocre de Villa-Lobos. Os músicos, artisticamente insatisfeitos (e com razão), rebelaram-se em outubro passado. Um dos três candidatos era Luiz Fernando Malheiro, um dos melhores regentes líricos do País, idealizador do Festival Amazonas de Ópera e profundo conhecedor da caixa de Pandora do Municipal - mas escolheram Klein.

Resumindo: o novo diretor artístico tem de liderar uma autêntica UPP para pacificar os ânimos e injetar ânimo a uma tropa combalida. É um duro teste para Rocha e uma corrida contra o relógio. Será que lhe deram os poderes extramusicais necessários para trabalhar no pódio com alguma tranquilidade? O tempo dirá.

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