Duras verdades batem à porta da Igreja Católica

No 25º Cine Ceará, o drama 'O Clube', do chileno Pablo Larraín, aborda um tema indigesto e premente, a pedofilia

Luiz Zanin Oricchio, FORTALEZA , O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2015 | 02h07

Bastante impressionante, de fato, o filme de abertura do 25.º Cine Ceará - O Clube, do diretor chileno Pablo Larraín. O filme, já consagrado internacionalmente, ganhou o Urso de Prata (direção) no Festival de Berlim. Fala de um assunto-bomba, pedofilia na Igreja. E o faz com grande originalidade narrativa.

A trama fala de quatro homens encerrados em uma casa isolada à beira-mar, numa pequena localidade no Chile. Há também uma mulher, que, ao que parece, toma conta deles. Aos poucos, a verdade vai sendo revelada. São padres que, em algum momento de suas vidas eclesiásticas, tiveram envolvimento com casos de pedofilia e foram afastados de suas funções. Estão lá, em parte, para purgar seus pecados. Em parte, para que os escândalos sejam abafados.

Tudo se precipita quando um dos molestados se põe a denunciá-los diante da casa. O fato terá um desfecho trágico e surpreendente. Depois disso, mais um padre chega ao retiro para arranjar as coisas - um cerebral e maquiavélico jesuíta.

O drama religioso é visualizado em tons frios, invernais, como que à distância. Alguns temas irrelevantes, em aparência, se moldam à trama, como o fato de um dos padres treinar um cão para participar de corridas entre galgos, uma prática local. Mas logo se verá que a presença dos cães nada tem de gratuita na trama e será também um fator desencadeante para o desfecho. Ou seja, nada se dá por acaso na formatação dramatúrgica de Larraín, diretor já bastante conhecido dos cinéfilos por filmes como No, Post-mortem e outros, participantes do circuito internacional de festivais.

Em Fortaleza, esteve presente o ator Alfredo Castro, habitué dos filmes de Larraín e que, neste, interpreta um dos padres. Em conversa, ele contou várias peripécias da filmagem, inclusive sobre a figura ambígua que é a freira, vivida por Antonia Zegers, casada com Larraín na vida real. "Sempre brincávamos que o melhor ator do grupo era Antonia", diz Alfredo. Ele conta também que Larraín tem uma casa de veraneio na região e que as corridas de galgos são uma tradição local. "Desse modo, ele incorporou essa prática à história, de maneira natural", disse. Lembrou também um caso divertido, e irônico. No avião mesmo de volta de Berlim para o Chile estavam a equipe do filme e um famoso cardeal chileno. Ignorando por completo o conteúdo de O Clube, o sacerdote fez questão de posar para fotos segurando o Urso de Prata recebido por Larraín. A fotografia fez grande sucesso nas redes sociais.

A noite de abertura, no tradicional Cine São Luiz, foi um sucesso. Tanto assim que várias pessoas ficaram de fora, pois os mais de mil lugares estavam ocupados. Na cerimônia inaugural, a atriz Leandra Leal foi homenageada, ganhando o troféu Eusélio de Oliveira das mãos de sua própria mãe, a também atriz Angela Leal. Leandra, que apesar dos apenas 32 anos de vida, já tem currículo recheado no cinema, lembrou que começou a carreira num filme rodado no Ceará. Trata-se de A Ostra e o Vento, de 1997, dirigido por Walter Lima Jr.

Público, homenageada e filme de abertura deram ótima partida para a 25.ª edição do Cine Ceará.

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