Dura viagem de volta à infância

Com Ingmar Bergman, com quem rodou Fanny & Alexander (1982), Pernilla August aprendeu a "não comprometer a intuição". Do ex-marido Bille August, que a dirigiu em As Melhores Intenções (1992), a sueca emprestou "o dom de capturar o momento presente, de um jeito convincente". E por influência de George Lucas, que lhe deu o papel da mãe de Anakin Skywalker em Guerra nas Estrelas - A Ameaça Fantasma (1999), Pernilla optou por "não confundir os atores, falando o mínimo possível no set". "Durante os intervalos de filmagem, em vez de morrer de tédio como a maioria dos atores, sempre passei o tempo observando os diretores", disse a cineasta estreante de 52 anos, premiada na Semana da Crítica de Veneza por Beyond, eleito o melhor filme pelo público.

Elaine Guerini ESPECIAL PARA O ESTADO VENEZA, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2010 | 00h00

Ainda que Pernilla prefira explicar o êxito de seu primeiro longa citando os seus mestres, Beyond é mais do que um dever de casa realizado por aluna aplicada. Um dos candidatos ao Troféu Bandeira Paulista, a ser entregue hoje no encerramento da 34.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o drama é uma sufocante e dolorosa viagem de volta à infância. Um período trágico para a pequena Leena (Tehilla Blad), que tenta proteger o irmãozinho da negligência e do abuso psicológico dos pais, alcoólatras. O passado é revisitado por Leena adulta (Noomi Rapace, de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres), quando ela recebe um telefonema do hospital, onde a mãe, moribunda, está internada. Feliz com a família que construiu, Leena não quer cutucar feridas antigas, mas é convencida pelo marido (Ola Rapace) a dizer adeus à mãe.

"Meu maior dilema foi estabelecer até que ponto Leena poderia ser cruel com a própria mãe. Pode parecer loucura, mas nesta hora acho que ouvi Bergman sussurrar no meu ouvido: Vá até o fim!", contou Pernilla, que buscou inspiração para o filme no livro homônimo de Susanna Alakoski. A aparente indiferença de Leena acaba minimizada pela incapacidade da mãe de pedir perdão, por tudo que fez a filha sofrer na infância. E o que as duas deixam de dizer uma à outra cria uma desconcertante atmosfera de tensão, deixando o público cada vez mais ansioso pelo momento da verdade. "Pelo meu histórico de atriz, vibrei com Noomi, quando Leena põe tudo para fora, após conter emoções por tanto tempo. Foi um presente de uma atriz à outra."

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