Dupla produz magia sonora com dois pianos

Com preciosa afinidade, Paulo Álvares e Olga Kopylova seduzem público com sua versão de Sagração da Primavera

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2013 | 02h09

No curto espaço de 51 dias, a Sala São Paulo recebeu duas versões magnas da Sagração da Primavera, a obra-prima de Igor Stravinski que estreou em 29 de maio de 1913, em Paris. Entusiasmantes, cada uma a seu modo. Se Gustavo Dudamel e a Orquestra Simon Bolívar estabeleceram um padrão de excelência praticamente inalcançável, em abril, para a versão orquestral do balé coreografado por Nijinsky, anteontem Paulo Álvares e Olga Kopylova conseguiram feito semelhante enfrentando a dificílima versão para dois pianos.

Um patamar elevadíssimo de qualidade de interpretação e, sobretudo, a compreensão de pressupostos essenciais quando se toca esta música. Como o de que a Sagração nasceu na versão para piano a 4 mãos (errei anteontem, no Estado, ao afirmar que Debussy e Stravinski tocaram a execução da versão a dois pianos em 1912; de fato, era a versão a 4 mãos). Portanto, e isso se aplica também à versão para dois pianos, não se trata de redução de partitura sinfônica, mas do nascedouro da peça, composta num piano de armário. Nada mais adequado, portanto, do que acentuar o caráter percussivo na versão para um instrumento que, muitas vezes esquecemos, é de percussão. Há quem atenue a dissonância, basicamente usada para "colorir". Mas o correto é enfatizar a constante mudança de compassos e acentos, os ritmos assimétricos, a dissonância percussiva, os ostinati obsessivos.

Nesse sentido, Olga demonstrou uma preciosa afinidade com Paulo Álvares, um mestre consumado na interpretação das músicas contemporâneas, que escolheu a leitura francamente visceral. Assistimos a Paulo comungando com Olga sua rara expertise. O público foi capturado e mergulhou de cabeça naquele luxuriante universo musical.

Em pouco mais de 30 minutos de pura magia sonora, Paulo e Olga nos fizeram esquecer a versão orquestral da Sagração - e isso, definitivamente, não é pouco -, mesmo quando imitaram efeitos tipicamente sinfônicos, como os trêmolos das cordas ou os potentes ataques dos metais, que são de fato os condutores da obra. A energia primal do toque, as dissonâncias convulsivas e os acordes metálicos de tão ásperos - tudo isso os fez construir uma interpretação que merece chegar ao CD (ou, no mínimo, disponibilizada em streaming no portal da orquestra, durante 2013).

A noite valeu ainda pelas peças iniciais, tão amadas por Martha Argerich e parceiros como Stephen Kovacevich, com quem gravou En Blanc et Noir, de Debussy; e as Variações Sobre Um Tema de Paganini, de Lutoslawski, que ela gravou com Nelson Freire.

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