Robson Fernandjes/AE
Robson Fernandjes/AE

Dupla dinâmica renova o choro

Alessandro Penezzi lança CD de composições inéditas com a ''cumplicidade'' do clarinetista Alexandre Ribeiro

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2011 | 00h00

Comprovado mais como um estado de espírito e um jeito brasileiro de tocar diversos estilos de música ligeira do que como gênero, o choro atinge um estágio "de êxtase" quando burilado por mãos hábeis como as do violonista Alessandro Penezzi e o clarinetista Alexandre Ribeiro. É o que se pode ver na apresentação que a dupla fará hoje no Auditório Ibirapuera, para lançar o CD Cordas ao Vento (Capucho Produções Artísticas).

"Dois caipirões", como brinca Ribeiro, vindos do interior de São Paulo - ele de São Simão, Penezzi, de Piracicaba - os dois criaram "cumplicidade" na capital, já tinham partilhado rodas de choro e outras experiências musicais, mas foi nesse álbum que fizeram o "pacto celeste", como diz o poema que dá título ao disco, impresso no encarte.

São dez temas inéditos de Penezzi e duas recriações de raridades de dois mestres: o tango brasileiro Famoso, de Ernesto Nazareth, e Chorinho Triste, de João Dias Carrasqueira. Tanto no disco como no show, a dupla conta com participações dos flautistas Toninho Carrasqueira e Rodrigo y Castro, e Léo Rodrigues, que toca pandeiro junto com Castro, no choro maxixe Capitão Rodrigo, tributo ao dono da flauta.

Vídeo video

Veja trecho do ensaio de Cordas ao Vento

Outros homenageados são Milton Mori (Ainda Que Milton de Mori), Esmeraldino Salles e Laércio de Freitas (Não Faz Cara Feia), Toninho Ferragutti (Sempre Que Posso), Paulo Moura (A Caminho de Casa), o pandeirista Marcelinho Galani (Entrando pela Cana) e o pai do violonista, Walkir Penezzi (no baião Cordas ao Vento). Se Chorinho Triste, é "daquelas belezas que doem na alma", a polca saltitante Pula-Pula é "pra fazer correr o sangue na veia".

Muito se fala da constante renovação do choro, com novos músicos se dedicando ao estilo, formações instrumentais diferentes, experiências com novas linguagens, etc. Porém, tanto Penezzi quanto Ribeiro concordam que é difícil, para o público e para os músicos, assimilar um repertório novo de choro. Cordas ao Vento tem dez bons motivos para contribuir para a renovação desse repertório, mas eles procuram equilibrar as apresentações com alguns clássicos para criar mais empatia com a plateia.

Não que isso exija muito esforço. Uma das qualidades desses músicos é ganhar o espectador no ato pela impressionante habilidade com que tocam seus instrumentos, unindo técnica, prazer e musicalidade em entendimento mútuo, sem cair na armadilha do exibicionismo. Se tocam numa velocidade "maratonística", como diz Penezzi, sem tropeçar numa nota, também têm um gosto pelo "lado sensível" e estão sempre experimentando novos caminhos. "A gente tem essa consciência de que não precisa tocar rápido, às vezes fica mais bonito tocar mais lento, mais com o coração", diz Ribeiro, que já foi apelidado de "Ligeirinho". É conversando nessa língua que eles se entendem.

Prazer de tocar. "Tem um momento em que a gente está tocando em que o êxtase se dá e nesse momento o espírito sai do corpo. Sei lá, dá vontade de dar um berro de tanto prazer de tocar. Isso sempre tive com Alê", diz Penezzi. "Nossas mentalidades musicais e de amizade são muito parecidas. A empatia é total, tocando a gente se entende num olhar. Então, o que poderia se transformar num erro crasso, acaba virando um improviso, uma coisa da arte dinâmica que é a música."

Alternando-se no clarinete e no clarone, Ribeiro a princípio seria um convidado, mas tem participação ativa e fundamental nesse novo trabalho de Penezzi, intercalando os solos com ele e contribuindo com ideias de arranjos.

Frequentador das rodas do bar Ó do Borogodó, efervescente reduto do samba-choro paulistano, onde conheceu Penezzi há cerca de seis anos, Ribeiro exalta o fato de pela primeira vez ter seu nome na capa de um disco. "Além do choro, temos mais afinidade por sermos do interior, de vez em quando a gente tocava umas modas de viola. Sempre fui fã das composições dele e são músicas muito difíceis de tocar. Quando a gente vence o desafio é mais prazeroso."

Antes de gravar o CD, os dois tocaram parte desse repertório na Dinamarca. Depois, fizeram o pré-lançamento com um show memorável no festival Choro Jazz Jericoacoara em dezembro de 2010 e, este ano, vão para a Califórnia e a Macedônia.

CORDAS AO VENTO

Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Portão 2. Parque do Ibirapuera, 3629-1075. Hoje, 21h. R$ 30.

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