Duke Ellington brasileiro

Wynton Marsalis leva a Nova York tributo ao maestro Moacir Santos criado por Zé Nogueira e Mario Adnet

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

Desde que o trompetista e compositor Wynton Marsalis ouviu e se entusiasmou por Ouro Negro - tributo brasileiro a Moacir Santos (1926-2006), idealizado por Mario Adnet e Zé Nogueira e lançado em 2001 - vem planejando levar o show para Nova York. Quando o músico - que tem trabalhos significativos nas áreas de jazz e música erudita - assumiu a direção do Jazz at Lincoln Center formalizou o convite a Adnet. Enfim seu desejo se realiza com o concerto Journey to Brazil, hoje e amanhã, no Rose Theater, dentro do complexo cultural nova-iorquino.

Adnet (violão) e Nogueira (sax soprano) seguiram para lá com mais oito músicos brasileiros: Jorge Elder (contrabaixo), Jurim Moreira (bateria), Armando Marçal (percussão), Marcos Nimrichter (órgão), Andrea Ernest Dias (flauta e flautim), Teco Cardoso (sax barítono), Jessé Sadoc (trombone), Marcelo Martins (sax tenor). Esses músicos - que participaram da gravação do CD - vão se juntar aos americanos Douglas Purviance (trombone baixo), Jeff Scott (trompa), Kurt Bacher (saxofones e clarinete) e Luis Bonilla (trombone).

Um dia antes de embarcar, Adnet precisou consultar um cardiologista, porque algo estranho bateu no peito. "Tocar lá na hora vai ser tranquilo, os preparativos é que são complicados. Não consigo pensar ainda no quão lindo vai ser, porque tem tantos problemas burocráticos pra resolver que fico tenso", diz Adnet.

Mais ocupado que ele só mesmo Marsalis, que não teve tempo de responder a algumas perguntas enviadas pela reportagem do Estado por e-mail na semana passada. Nem se sabe se vai conseguir assistir a pelo menos um dos concertos, porque estava na Europa terminando de compor duas peças eruditas.

Para Marsalis, Moacir "é nada menos do que o Duke Ellington da América do Sul", como registrou no site do Jazz at Lincoln Center (http://jalc.org). Como o jazzman, Moacir também teve aprendizado de música clássica. Dizia, bem-humorado, que ansiava "produzir músicas com catalogação erudita, com por exemplo Opus 3, n.º 1". Daí veio a ideia de numerar suas composições, como a série que originou a obra-prima Coisas. Muitas dessas "coisas" estão em Ouro Negro, seguindo fielmente os arranjos originais do maestro. Afinal, não há como melhorá-los, nada mais precisa ser inventado em cima disso.

Adnet acredita que esses concertos possam abrir portas para levar outros projetos a Nova York. "As perspectivas são maravilhosas de poder fazer mais trabalhos lá. Wynton Marsalis está apoiando totalmente", diz. O aval de Marsalis é importante para despertar interesse nos americanos para a peculiaridade da especialíssima música de Santos, que foge dos padrões de samba e bossa nova, mais comuns aos ouvidos estrangeiros. Michael Brecker é um dos jazzistas que confirmaram presença na plateia.

Embora tenha "alguns perfumes", como diz Adnet, referindo-se às participações vocais de Milton Nascimento, Djavan, Ed Motta e João Bosco, Ouro Negro, que tirou Moacir do limbo, reuniu a nata do instrumentistas brasileiros e é basicamente um álbum duplo instrumental.

O violonista gosta de transitar nas duas áreas e, depois de recapitular e renovar com esmero obras como as de Tom Jobim e Baden Powell, dedica-se agora a um trabalho autoral, em que também canta. O CD O Samba Vai sai este ano e tem parcerias com seu irmão Chico, Paulo Cesar Pinheiro, João Donato e Bernardo Vilhena. Porém, Ouro Negro está sempre em circulação, aproveitando oportunidades. Em agosto será a vez de Belo Horizonte.

QUEM É

MOACIR SANTOS

COMPOSITOR E MAESTRO

Nascido no interior de Pernambuco, ele é reconhecido internacionalmente como arranjador sofisticado e referência da música afro-brasileira. Marsalis tocou em seu último CD, Choros & Alegria

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