Carlos Garcia Rawlins/Reuters
Carlos Garcia Rawlins/Reuters

Dudamel o maestro com uma missão

Venezuelano fala da necessidade de buscar novos públicos - rapidamente

Entrevista com

Alan Rusbridger, The Guardian, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

O tempo de Gustavo Dudamel é precioso e rigorosamente racionado. Todos querem se aproveitar um pouco. Seus assessores controlam o maestro de cronômetro em punho. Trinta minutos com ele não serão 29 minutos, nem 31. Serão 30 minutos.

Estamos em Lucerna, portanto a cronometragem suíça é ainda mais precisa. Dudamel é uma pessoa exuberante até mesmo quando diz ser essencial que alguém tome conta da sua agenda. A sensação que se tem é de que, se deixarem, ele conversará sem parar e perderá a noção do tempo.

A torrente de palavras é ainda mais impressionante considerando o número cada vez maior de compromissos musicais. Já vão longe os dias em que o mundo ia à Venezuela para ver o homem aclamado por Simon Rattle como o regente dotado do mais impressionante talento que ele jamais conheceu.

Dudamel agora vive entre a Suécia, onde é diretor musical da Sinfônica de Gotemburgo; Los Angeles, onde é diretor musical da Filarmônica; Caracas - e qualquer outro lugar que tenha sido suficientemente previdente para contratá-lo antes que ele se tornasse uma superestrela das bilheterias, viajando pelos continentes com a esplêndida Orquestra Sinfônica Jovem Simon Bolívar, da qual é diretor artístico desde 1999.

Mas Dudamel já não é tão mais jovem assim - fará 30 anos em 2011. Em seu primeiro ano em Los Angeles, os primeiros abalos de uma reação oposta ficaram evidentes em algumas resenhas depreciativas de um ou dois críticos americanos. Segundo eles, o maestro não tem profundidade, leva a música a extremos, e carece de sutileza. Em suma, não é o messias de que todos falam.

"Não, não sou o messias", diz Dudamel sorrindo e dando de ombros. Ele estende os braços sobre o sofá de couro preto nos bastidores da sala de concertos, onde estava ensaiando, e recita a lista das partituras que estuda neste momento, ou pretende estudar. "Sinfonias de Bruckner. Na realidade, espero dirigir óperas de Verdi, porque estou aprendendo muito com meu maestro, José Alberto Abreu. Carmen, no Teatro La Scala, e Mozart, evidentemente. E, no próximo ano, todas as sinfonias de Brahms e o Réquiem Alemão. Ontem dormi pouco. Estava trabalhando. Dentro em breve terei de reger a Sétima de Mahler".

As coisas mais importantes em Los Angeles têm sido o amplo enfoque e a energia com os quais contribuiu para a criação musical venezuelana. "As pessoas podem achar que sou louco, que falo de coisas impossíveis, entretanto falo de coisas impossíveis que estão acontecendo", afirma. E descreve seus esforços para modificar a composição do público da cidade.

Evidentemente, é impossível que ele consiga reproduzir com um simples estalar dos dedos o sistema venezuelano, graças ao qual cerca de 300 mil crianças aprenderam a tocar em orquestras. Ele começou em sua primeira temporada com a orquestra da costa oeste conversando com as pessoas que trabalhavam na sala de concertos vendendo ingressos ou programas - e convencendo-as a levar amigos e parentes para assistir a um concerto.

"Precisamos fazer concertos para estas pessoas porque elas trabalham aqui, estão dando a vida para este teatro e adoram música clássica. E também para a comunidade", conta. "Temos um público enorme, formado ao longo dos anos. Mas, desde a temporada passada, começamos a preparar um novo público, que naturalmente se fundirá ao tradicional. E é impressionante trabalhar com a nova orquestra de crianças, o projeto Yola (Youth Orchestra of LA). É como o Sistema na Venezuela. E também temos públicos entre as comunidades infantis, às vezes pobres e excluídos. Quando apresentamos um concerto no Hollywood Bowl, acho que cerca de 90% da plateia ouvia música clássica pela primeira vez."

Em Gotemburgo, também, ele está determinado a levar a música clássica a um público novo. "Por exemplo, fomos para Hammarkullen - um bairro muito pobre - e apresentamos dois concertos, um para as crianças da comunidade e outro para os pais. Não é que as pessoas não gostem de música clássica. Ocorre que elas não tiveram a chance de compreendê-la e de experimentá-la. Ir a um concerto às vezes é difícil, pode representar uma longa viagem. Depois há o preço dos ingressos. Mas quando a música vai para a comunidade, as pessoas dizem o quanto a música lhes parece impressionante! Precisamos ir lá e mostrar a estas pessoas o que é música clássica. Às vezes dizemos que a música clássica tem um público reduzido, mas é porque as pessoas não têm a oportunidade de se aproximarem mais dela. Evidentemente, também precisamos nos apresentar em salas de concerto. O nosso sonho como músicos é tocar em uma sala maravilhosa e confortável com uma acústica fenomenal. Mas também é importante levar estes novos públicos para os concertos."

Falamos enquanto Dudamel se prepara para reger a Sinfonia Alpina de Richard Strauss com os músicos da orquestra Simon Bolívar no festival de Lucerna, onde também comandou a Filarmônica de Viena. É difícil a passagem da orquestra jovem para profissional? "As orquestras jovens têm uma energia peculiar", afirma. "Para uma orquestra jovem tudo é novo. Mas trabalhar com uma orquestra profissional me dá o mesmo prazer. Na maioria dos casos, existe uma tradição: uma tradição no som, na maneira de tocar. Aprendo o tempo todo, com cada orquestra. Mesmo que esteja regendo uma orquestra de crianças. É algo muito especial conseguir o controle e a concentração de uma criança."

Para Dudamel, o segredo está em aproximar-se de todas as coisas como se fosse a primeira vez. "Você se torna um músico porque gosta de música... mas, com o tempo, quando você tem um emprego e começa a trabalhar semanalmente, a música se torna uma rotina. Minha preocupação é evitar a rotina. O desafio não é tanto modificar o som, mas conectar-se e criar algo especial. Um concerto é como um ritual, Mas às vezes o ritual se torna cansativo. E é por isso que mesmo eu, às vezes, quando vou a um concerto, penso, "Oh, meu Deus, precisamos de alguma coisa mais!" Os músicos precisam dar mais. Não precisam pular, nem gritar, mas precisam comunicar seus sentimentos".

Truques. Como todos sabem, Dudamel conseguiu isso com a orquestra Simon Bolívar, usando truques de figurino e danças. Como é que um regente consegue o mesmo resultado com orquestras profissionais? "Pode-se ter o maior conhecimento do mundo em matéria de música, mas se não conseguir convencer a orquestra, será impossível. É este o mistério da regência. Toscanini era um homem muito rigoroso, realmente direto, e se zangava com os músicos. Mas conseguiu que eles o respeitassem por causa do seu conhecimento da música e também por sua personalidade. Depois que completei os 29 anos, comecei a pensar um pouco mais profundamente sobre as coisas. Neste momento, para mim esta é a grande questão. Vejo coisas que fiz no passado e vejo que estou regendo as mesmas coisas, com menos movimentos, mas com a mesma energia."

"Pensava em como ensaiar a Sinfonia Alpina. É uma sinfonia com enorme orquestração, e não é verdade que, quanto menos, melhor será o resultado. Lembro que o regente Barbirolli, falando de Jacqueline du Pré, uma artista extraordinária que dava tudo em cada nota, disse: "Se você não exagerar quando é jovem, o que terá quando for velho?" "

Já faz 29 minutos que Dudamel está externando sem parar seus pensamentos, com palavras e gestos. Uma assessora se aproxima e faz uma contribuição pessoal: nenhum dos jovens músicos venezuelanos que tocarão a Sinfonia Alpina jamais havia visto montanhas cobertas de neve até chegar a Lucerna. "Então Gustavo cancelou o ensaio, e com dinheiro do seu bolso levou os meninos para a montanha".

Estamos de volta às metáforas do possível messias. Mas o tempo acabou. Dudamel precisa descansar. Afinal, até Moisés dormia antes de um grande trabalho. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

EM DISCOS

Beethoven:

Gravação da Quinta Sinfonia, com os músicos da Sinfônica Simon Bolívar (DG/Universal)

Mahler

A célebre Quinta Sinfonia do compositor, também à frente da orquestra jovem do Sistema venezuelano (DG/Universal)

Tchaikovsky

Francesca da Rimini ao lado da Quinta Sinfonia do compositor (DG/Universal)

Stravinsky

Mais recente trabalho do maestro com a Simon Bolívar, traz a monumental Sagração da Primavera (DG/ Universal)

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