Leo Azevedo/AE
Leo Azevedo/AE

Dudamel - Estrela ascendente

Maestro venezuelano começa hoje em Paulínia série de concertos em São Paulo

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2011 | 00h00

"Está tudo no olhar", diz o maestro Gustavo Dudamel ainda nos bastidores do Teatro Castro Alves, depois de quatro horas ensaiando a Sinfônica Simón Bolívar. Expressão cansada, ele aponta para os jovens músicos venezuelanos que deixam o palco e confraternizam com os brasileiros do Neojibá, projeto de formação musical baiano. "Há tanto em comum aqui, e não falo apenas do continente, da Amazônia. Há também esse olhar, essa paixão. Esse sentido único no que eles fazem", diz ao Estado. E complementa: "Isso faz desta turnê algo extremamente especial para todos nós."

Desde terça até o fim da próxima semana, Dudamel, que acaba de completar 30 anos, está no Brasil para concertos com a Sinfônica Simón Bolívar; depois de Salvador, eles se apresentam hoje em Paulínia, de domingo a terça na Sala São Paulo, dentro da temporada da Sociedade de Cultura Artística e, a partir de quinta, no Municipal do Rio. Depois, seguem para Buenos Aires, Montevidéu, Santiago e Bogotá, antes de voltarem a Caracas.

Esta não é sua primeira vez no Brasil. Os contextos, porém, não poderiam ser mais diferentes. Quando esteve em São Paulo em 2002 ("sério que já faz tudo isso?", ele pergunta), foi para participar de um concurso de regência no Teatro Municipal, organizado por Lorin Maazel. Hoje, retorna como o maestro mais badalado do cenário internacional, diretor da Filarmônica de Los Angeles e regente convidado das grandes orquestras europeias e americanas.

Dudamel é um astro pop. Parado a todo instante para fotos, anda cercado de assessores responsáveis por barrar presenças indesejáveis (a imprensa é uma delas). A popularidade se mede também pelas expectativas despejadas sobre ele. Há alguns anos, impactado pela apresentação da Simón Bolívar em Londres, um crítico inglês escreveu que Dudamel era "a salvação da música clássica". Mais contido, o New York Times definiria melhor o fenômeno ao associar o maestro ao Sistema, projeto venezuelano de educação musical criado nos anos 70 que hoje reúne 250 mil músicos pelo interior da Venezuela, demonstrando o vigor e a energia que o engessado mundo da música clássica europeia havia deixado de lado. Dudamel aceita a responsabilidade. Fala do desejo da dinamização do cenário musical, mas insiste que não é um fenômeno isolado. "Todo o conceito que propomos está baseado no diálogo. O sentido da interpretação musical é esse, precisa ser esse. E isso extravasa o mundo da música. No fundo, a questão é mostrar que arte e cultura são fundamentais na educação, na formação de um cidadão."

No Sistema, músicos são estimulados a tocar - e reger - desde cedo. Dudamel lembra que, com 13 anos, já era regente assistente de uma orquestra de câmara em Barquisimeto; um ano mais tarde, regeria pela primeira vez uma sinfônica. "Sei que parece incrível e irresponsável", ele brinca. "Mas o Sistema nos levava a isso ao propor que o regente não é necessariamente uma figura de autoridade, que olha de cima para baixo os músicos. Não importa se regendo ou tocando, éramos todos colegas." Ter sido formado no Sistema fez dele, então, um músico diferente de maestros formados em outros centros? "O que posso dizer é que crescer em grupo me definiu como músico e regente e, por mais que reger orquestras profissionais em todo o mundo coloque novos desafios, sempre, a todo instante, no fundo a sensação é a mesma. Tenho 30 anos e, há 20, faço música em conjunto, nunca me isolei durante minha formação."

A ideia da arte como "direito humano fundamental" ele diz ter aprendido com as duas grandes referências de sua vida musical, José Abreu, criador do Sistema, e Claudio Abbado, maestro italiano que foi um dos primeiros a perceber seu talento - e divulgá-lo mundo afora. "O contato com eles definiu também a pessoa que sou. Abbado nunca perdeu a capacidade de crer no próximo e me parece que este é um dos segredos, e sentidos, da arte."

De Abbado, Dudamel parece ter herdado algo mais do que o discurso. O gestual lembra muito o do veterano, ex-diretor da Filarmônica de Berlim. E, desde o início de sua carreira, o venezuelano escolheu como uma das tônicas de seu trabalho o compositor que o italiano, no fim de sua trajetória, decidiu revisitar em um conjunto sublime de gravações lançadas nos últimos anos. "Mahler me parece tão imenso que transcende tudo o que sei sobre ser um músico", diz Dudamel. "É curioso que, para muita gente, não era um autor sincero, honesto. Mas eu vejo o contrário, sinto que ele coloca sua alma em cada nota."

Durante o ensaio na manhã de quarta, quando os músicos começaram a trabalhar na sua Sinfonia nº 7, fez-se completo silêncio na sala, até então agitada, em um entra e sai de músicos, professores e assessores. "É o efeito Mahler", brinca Dudamel. "E é difícil explicá-lo. Mas acredito que tem a ver com o fato de que ele buscava em suas obras a eternidade, com a energia que ele colocava em cada nota. Talvez por isso suas obras, apesar de imensas, complexas, provoquem tamanho fascínio e levem a um estado único de concentração?" Um assistente interrompe o maestro para dizer que ele precisa ir embora. Dudamel se levanta e, caminhando em direção ao carro que o aguarda na entrada do Teatro Castro Alves, tenta uma síntese. "Mahler é, para mim, sinceridade. E é ela que transforma o ser humano. Eu sou fascinado por rostos, por olhares. E quando vejo os olhares que vi hoje nesses jovens brasileiros tenho cada vez mais certeza de que o acesso à beleza, à criatividade transforma as pessoas." Ele aponta para os grupos de músicos conversando na porta do teatro. " Isso eventualmente vai levar a alguma coisa."

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