Duchamp, além do ready-made, lança enigmas em exposição em SP

O que é uma obra de arte? E quemdecide o que é arte? Inquietações do tipo nortearam a vida do franco-americanoMarcel Duchamp (1887-1968), que revolucionou a história da arteao negar o papel puramente visual de uma obra e lançar osprincípios da arte conceitual, pop, minimalista, cinética e dasinstalações. Uma retrospectiva de seu trabalho, a primeira na AméricaLatina, acontecerá no Museu de Arte Moderna de São Paulo, apartir de terça-feira, como parte das comemorações dos 60 anosda instituição. São 120 trabalhos que vão além do ready-made,como são conhecidas suas obras mais famosas, incluindo o urinole o banquinho com a roda de bicicleta. A exposição promete ser pedagógica sem ser simplista, paraque o público possa compreender, ou entender menos ainda, aobra de um dos principais artistas do século 20. Isso porque seus trabalhos não são de fácil digestão,repletos de enigmas intrincados, muito embora Duchamp quisessejustamente aproximar a arte do público, rompendo com a idéia desublime e exigindo a reflexão do espectador. A própria curadora da exposição, Elena Filipovic, queestuda Duchamp há mais de uma década, concorda com acomplexidade, mas garante que a viagem vale a pena. Ela se dizespecialista em Duchamp, e não expert. "É difícil ser expert em Duchamp, ele sempre faz vocêquestionar as coisas. Eu espero que as pessoas voltem para vera exposição algumas vezes, e não apenas uma vez", disse Elena."Porque é uma história que quanto mais você vê, mais vocêentende. Ele é um artista complicado." A própria montagem da exposição, sem linearidade e comparedes assimétricas, busca apresentar um lado pouco conhecidode Duchamp -- sua dedicação ao design de exposições -- mas tãoimportante quanto seus ready-made. Duchamp criou verdadeiras instalações artísticas ao montaras mostras coletivas dos surrealistas nos anos 1938, 1942, 1947e 1959. Quatro imagens dessas exposições poderão ser vistas emmódulos fechados espalhados pela exposição, nos quais ovisitante tem apenas uma fresta para admirá-las. Na exposição de 1938, por exemplo, Duchamp cobriu o tetocom sacos de carvão, com o chão sujo de folhas e uma escuridãototal -- os espectadores usavam uma laterna para ver as obras.Em 1959, criou um ambiente de corpo humano para ossurrealistas, com paredes que "respiravam", sons de mulheresgemendo e diferentes perfumes no ar. "Quando digo que é interessante ver seu trabalho como'curador', embora esse termo ainda não existisse, é porqueDuchamp estava sempre pensando no que é um trabalho de arte ecomo a exposição vai criar um impacto no modo em como vocêpensa um trabalho de arte", explicou Elena. HISTÓRIA ERÓTICA Outras facetas pouco conhecidas de Duchamp, exploradas noMAM de maneira mais direta ou não, são seus trabalhos ópticos,incluindo um filme de 1926, sua preocupação com a fotografiaatravés de registros de suas obras por Man Ray, e os trabalhosde áudio em parceria com John Cage. A principal e mais enigmática obra, no entanto, é o "GrandeVidro" ou "A Noiva Despida por seus Celibatários, Mesmo", quelevou oito anos para ser realizada e ainda assim foi lançadaincompleta, em 1923. Existem atualmente quatro réplicas, já quea original não sai do Museu de Arte de Filadélfia. Como o próprio nome diz, trata-se de um grande vidro, comuma pintura abstrata que simboliza a noiva virgem na partesuperior e os nove celibatários na parte de baixo, entredesenhos de mecanismos, como se eles rodassem em falso atrás damulher impossível. "Tenho estudado Duchamp por mais de 12 anos e eu nunca iriafingir e te dizer, 'olha, o 'Grande Vidro' é isso"', disseElena. "A coisa mais bonita sobre ele é seu enigma." Segundo ela, a obra remonta uma tradição que vem daRenascença, de usar a pintura para contar uma história. "É umahistória erótica, sobre sexo, mas sobre sexo que não acontece,que é frustado", explicou. Três caixas de anotações sobre o "Grande Vidro", de 1914 a1967, essenciais para se começar a entender esse épico, estarãoem exposição, espalhadas pelo espaço. Outras obras famosas são "Caixa-valise", com 69 trabalhosde Duchamp em miniatura, e seu último projeto, a instalação"Etant Donnés", reconstruído no MAM através de imagens,desenhos e esboços.

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