''Dub é meditativo, é algo espiritual''

Matisyahu. Rapper e compositor

Entrevista com

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Matisyahu veio ao Brasil há três anos, para tocar em São Paulo, Rio e no Festival de Verão de Salvador. Pedia para as mulheres não o tocarem, mas no final, na Bahia, acabou subindo com o Olodum no palco, relaxando total. Ele volta ao Brasil neste fim de semana com um novo disco, Light, que já estreou no top 20 da Billboard, e teve um single, One Day, escolhido como hino oficial dos Jogos Olímpicos de Inverno.

O hip-hop, em geral, tem uma abordagem bastante social e política. O seu parece mais contemplativo na maior parte das vezes.

Minha maior preocupação diz respeito à minha consciência. Para mim, ser artista é ter sensibilidade para ouvir a forma como o mundo ressoa e transmitir isso para uma expressão, uma linguagem. Minha abordagem é menos política que espiritual.

Você é muito bom no beatbox. Vi um vídeo em que você toca um hit atual do Kings of Leon, Use Somebody, e termina com um beatbox impressionante. Por que gosta de simular instrumentos com a boca?

Para mim, o beatbox é a primeira forma que um não-músico usa. Quando a gente não toca um instrumento, assovia ou faz sonoplastia com a boca, para imitar na cabeça aquilo que queremos. Assim como o canto falado, o rap, que é também a minha voz como artista.

Seu novo álbum, Light, foi produzido por David Kahne. O que há de diferente nesse novo trabalho e nessa nova turnê?

Estou com uma nova banda, que é muito boa, especialmente quando toca reggae e ska. São músicos excelentes que cruzam diversos gêneros. Quanto ao disco, é difícil de descrever, mas tem alguma coisa de dancehall, ska, uma balada folk. É talvez mais reggae e menos hip-hop. O fato de ter excursionado bastante com o álbum anterior (Youth) fez com que eu esteja mais preparado, mais solto e ao mesmo tempo focado no palco.

Além da versão que você fez do megahit do Kings of Leon, que tipo de som você costuma ouvir como apreciador de música?

Ouço todo tipo de som. Ouço música que não tem nenhuma relação com a que faço, por exemplo. Mas sou tranquilo, não sou frenético como um adolescente, que fica baixando tudo que ouve falar na internet. O cover de Use Somebody foi feito para a Billboard.com. Muito da música que há aí fora busca provocar alguma reação no corpo das pessoas, mas essa música do Kings of Leon está totalmente ancorada na voz, e no jeito como a voz pode transmitir uma emoção. Senti uma conexão comigo, foi por isso que gravei a minha versão.

Você usa bastante o dub jamaicano na produção. O que sente em relação ao dub?

É um recurso que possibilita um som bastante meditativo, com grande carga espiritual. Tem tudo a ver comigo, com minhas crenças. Para mim, antes mesmo de qualquer coisa, o que vem em primeiro lugar é a música. A música é minha conexão com meu espírito, é um canal de comunicação entre o que sinto e penso e o que quero transmitir ao meu público.

Como você se sente em relação a Bob Marley?

Ele foi muito influente para minha geração. Mostrou o poder de conversão pessoal que as canções podiam ter. Também cristalizou batidas, sons. É responsável em grande parte pelo jeito que nós sentimos a música na contemporaneidade.

Quando você sentiu que seria um rapper e que expressaria o judaísmo como convicção?

Quando fui a Jerusalém. Eu tinha 16 anos, e foi a primeira vez que senti que ser judeu era importante. Tinha viajado com garotos que tomavam LSD no avião, e a vida da minha geração em Nova York era fumar haxixe e comer falafel e frequentar bar mitzvah de garotas ricas. Foi lá que eu senti que havia alguma transcendência na vida, e que era preciso buscá-la.

QUEM É

MATTHEW MILLER

CV: Conhecido mundialmente como Matisyahu, é um rapper de NY com um traço distinto dos colegas: é judeu ortodoxo. Cresceu em White Plains, mas quando tinha 16 anos foi estudar num kibutz em Hod Hasharon, Israel. Os pais não eram ortodoxos. Ele decidiu que a forma de divulgar sua conversão seria pelo rhythm and poetry (rap).

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