Duas visões do universo feminino na Fortes Vilaça

Leda Catunda e Alejandra Icazainauguram amanhã à noite duas exposições simultâneas naGaleria Fortes Vilaça, mostrando duas poéticas absolutamentediversas, pessoais e ao mesmo tempo vinculadas a questõescentrais do universo feminino. Tanto Leda, com suaspinturas-objeto de estranhas e confortáveis formas orgânicas,quanto Alejandra utilizam-se de procedimentos que remetem dealguma maneira ao universo doméstico feminino sem, no entanto,recair em clichês. Ambas, aliás, dão continuidade a um trabalhoabsolutamente personalizado, que sobrepassa questões de gênero.Leda Catunda, por exemplo, retorna ao circuitopaulistano - após uma ausência de quatro anos, período em queaproveitou para expor seu trabalho em outras cidades brasileirase em Nova York - com trabalhos absolutamente coerentes com suaspesquisas anteriores, mas inovando numa série de questões. Asformas orgânicas, a sobreposição de planos, o reaproveitamentode materiais existentes no comércio continuam lá.Mas há nessas novas obras da artista uma certa elegância, uma preocupação maior com o acabamento. Em alguns trabalhos, aestrutura torna-se mais sofisticada e aparente. O chassi demadeira torna-se parte da obra, criando uma estrutura sobre aqual se entrelaçam os vários elementos moles que compõem a obra- e que continuam a ser uma característica central de suaprodução. Não é à toa que ela escolheu a questão da maciez comotema para seu doutorado, a ser defendido em março (com outraexposição) no Centro Universitário Maria Antonia.Outro ponto inovador nos trabalhos é a utilização queLeda Catunda faz de imagens que se referem diretamente a seucotidiano. Isso foi possível graças à técnica que permite aimpressão de uma imagem fotográfica sobre qualquer tecido. Naobra Minas, vemos fotos de viagens por Minas Gerais feitas pelaartista; em Cigarras, ela utiliza cenas da praia em que passa asférias; as paisagens mentais - como um desenho aéreo de um rio -também passam pelo mesmo procedimento, transferindo para a obrauma forte carga afetiva e deixando cada vez mais de lado aironia com que trabalhava o universo kitsch dos produtosindustriais.Em Retrato, peça feita da sobreposição de gomos detecido e que tem a forma de uma mórula (primeira divisão celulardo óvulo), essa questão afetiva fica ainda mais evidente. Notrabalho, que ocupa um lugar central na exposição, ela associauma série de gomos de voil, sobre alguns dos quais estãoreproduzidos detalhes de seu rosto e do de seu marido, o tambémartista Sergio Romagnolo.A afetividade também tem uma importância fundamental napesquisa de Alejandra Icaza. Suas pinturas, que podem ser vistascomo agradáveis composições espaciais construídas a partir dasobreposição de diferentes elementos na tela (utilizandorecursos óticos que parecem criar vários planos de imagem), têmuma certa dimensão narrativa, contendo elementos que parecemfazer parte de uma linguagem primitiva e secreta da artista. Sãodesenhos delicados, "gravados" na tinta, que parecem receitasde como construir máquinas malucas, ou meras anotaçõessimbólicas, como mãos e pés. Seu código é visual e nãodescritivo.As cores e a utilização quase exclusiva das formasarredondadas - ela diz preferir o círculo à aresta do quadrado -também são elementos importantes de sua poética, reforçando ocaráter feminino do trabalho. Se essa questão já é forte nasgrandes telas, ela se torna central nas pequenas colagens que aartista também trouxe ao País, mas que não estarão à mostra nasala principal por falta de espaço. "Esses trabalhos são maisintimistas, em formato pequeno; os realizo como uma mulher quecostura, como um trabalho doméstico, repetido diariamente",explica ela.Alejandra Icaza e Leda Catunda. De terça a sexta, das10 às 19 horas; sábado, das 10 às 17 horas. Galeria FortesVilaça. R. Fradique Coutinho, 1.500, tel 3032-7066. Até 6/9.Abertura, amanhã (08) às 20 horas.

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