Duas vidas unidas pelo macarthismo

Clássicos de Elia Kazan e Joseph Losey chegam finalmente ao mercado brasileiro, para satisfação dos cinéfilos

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2010 | 00h00

Autor de dois grandes livros de entrevistas sobre Elia Kazan e Joseph Losey, o crítico francês Michel Ciment não teria deixado de assinalar mais esta coincidência. No fim do ano passado, ele juntou os dois num único (e alentado) volume. A título de justificativa, escreveu que as trajetórias dos dois diretores apresentavam estranhas coincidências. Ambos começaram no teatro, nos anos 1930 e 40, estrearam em Hollywood com poucos anos de diferença, tiveram suas vidas entrelaçadas durante o macarthismo e voltaram a se cruzar no Festival de Cannes, no começo dos anos 1970, quando Losey, integrando o júri, fez de tudo para dissuadir seus companheiros que queriam premiar Os Visitantes, de Kazan.

Havia espectadores em suspense, à espera do momento em que, enfim, Clamor do Sexo, de Kazan, e Eva, de Losey, fossem lançados em DVD no País. O momento chegou. Os dois DVDs chegam amanhã às locadoras, num lançamento da Lume. Michel Ciment teria se deliciado com a nova coincidência. Kazan fez seu clássico em 1961, Losey realizou o dele em 62. O primeiro tornou-se um personagem polêmico, ao aceitar colaborar com a Comissão de Atividades Anti-Americanas do Senado dos EUA, dedurando comunistas. Losey, no outro lado, precisou se exilar para fugir à lista negra e desenvolveu parte de sua carreira na Europa, sob pseudônimo, antes de ressurgir no começo dos anos 1960.

Clamor do Sexo ostenta a fama de narrar uma das mais belas - e tristes - histórias de amor teen do cinema. Kazan considerava o desfecho a coisa mais madura que filmou. Losey transformou o romance de James Hadley Chase na complexa e fascinante história de um casal que vive relações de dominação e submissão. Clamor passa-se durante a depressão econômica dos anos 1930, nos EUA. Eva é ambientado em Veneza, cidade/berço do capitalismo, e discute o valor do dinheiro, o próprio mercantilismo nas ligações interpessoais. São dois dos maiores filmes do cinema.

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