Duas trupes e seus projetos radicais

São duas trupes que têm em comum currículos com experiências internacionais, repertórios que abrem amplo espaço para projetos radicais e integrantes workaholics. As companhias Os Satyros (30 espetáculos em 12 anos) e Taanteatro (22 em 10 anos) integram hoje um importante grupo de artistas brasileiros que investiga a linguagem teatral.Os Satyros, formado em São Paulo em 1989 pelo curitibano Ivam Cabral e pelo paulistano Rodolfo García Vázquez, tem sede em Curitiba desde 1996 e neste ano voltou à capital paulista abrindo um café-teatro na Praça Roosevelt. Na década de 90, por seis anos seu quartel-general esteve em Lisboa. Integrantes do grupo atuam na ONG alemã InterKunst, de Berlim. A companhia não cultiva um gênero único, o repertório é amplo. Vai da Commedia dell´Arte ao Maldoror do maldito Lautréamont, de uma envolvente e teatralista invocação do mundo de Ramón Del Valle Inclán no Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte, que inaugurou o espaço paulistano da equipe, à intimista e delicada antologia de poemas do escritor curitibano Zeca Corrêa Leite, Quinhentas Vozes, que agora ocupa a cena do Espaço dos Satyros, na Praça Roosevelt.Fundado em 1991 por Maura Baiochi, bailarina formada em Brasília, uma das pioneiras brasileiras do butô, que aprendeu no Japão, com Kazuo Ohno, o Taanteatro funciona em São Lourenço da Serra, interior de São Paulo. Sua sede é a casa que a artista divide com o marido, o jornalista alemão Wolfgang Pannek, co-diretor da trupe. "Não saímos de São Paulo por romantismo", diz, "mas porque fora da cidade os aluguéis são muito mais baratos." Ao contrário dos Satyros, que namoram a diversidade estética, o Taan investe em projetos que têm forte afinidade entre si. O grupo levou para o palco peças que investigam os universos de Frida Kahlo, Lewis Carroll, Antonin Artaud, Fernando Pessoa, Isidore Ducasse, o "conde de Lautréamont" e Samuel Beckett. Recentemente, com Assim Falou Zaratustra, adaptado do ensaio de Friedrich Nietzsche, encerraram um ciclo em que revisitaram seu repertório, celebrando o 10.º aniversário no Galpão Carlos Miranda da Funarte.Manter no Brasil, por tanto tempo, trupes que privilegiam o experimental "é difícil pra caramba", diz Ivam Cabral. "Temos de nos multiplicar para atingir os objetivos, fazer o teatro que queremos." Maura Baiocchi afirma: "Conseguimos apoios, mas nenhum patrocínio. E a bilheteria é pequena. Dá pra pagar o aluguel da luz." Cabral informa que a sede paulista dos Satyros ainda é deficitária. "Isso estava previsto, estamos considerando como um investimento, o prejuízo aqui é compensando pelo trabalho em Curitiba." Lá, a companhia mantém cursos livres, um teatro e uma produtora de espetáculos. Rodolfo García Vázquez assina as montagens curitibanas da trupe, Romeu e Julieta, de Shakespeare, e Sapho de Lesbos, de Cabral e Patrícia Aguille, ambas em temporada na cidade.Os cursos desempenham papel importante nas finanças dos Satyros e do Taanteatro. "Temos uma escola forte em Curitiba", diz Cabral, "com uma média de 80 a 100 alunos." O lucro banca os outros projetos. As aulas também dão base à companhia de Maura Baiocchi. "A maior parte de nossa verba vem dos cursos. Até hoje os aulas de butô que abro ficam cheias." Ela está igualmente atraindo artistas para São Lourenço da Serra. "Entre janeiro e fevereiro fizemos lá um curso de um mês, 12 horas diárias. As vagas se esgotaram. Veio gente da Argentina, de Pernambuco, de Minas Gerais. Ensinamos a técnica taan, mostrei meu trabalho, que desenvolvi botando passos de capoeira, de danças afro no butô, e todos elaboraram solos."A palavra taan foi inventada por Maura Baiocchi. "Veio de ´tan´, que significa dança, movimento, ação, em sânscrito. Acrescentei um ´a´ para que ganhasse melodia." O Taanteatro surgiu depois que, ao fim da primeira temporada dela no Japão, em 1988, Baiocchi, paranaense de São João do Caiuá, chegou a São Paulo e começou a lecionar butô.O nome dos Satyros também foi escolhido pela sonoridade, muito mais do que por seu sentido mitológico, carregado de sexualidade. Cabral e Vázquez conheceram-se em fins da década de 80, na Escola de Comunicações e Artes da USP, onde estudavam. Lá formaram o núcleo do futuro grupo. "Achamos que Satyros seria um nome bacana", lembra Cabral. Foi também profético. O sexo esteve no centro de alguns dos maiores sucessos do grupo. Saló Salomé, montada em 1991, levou os Satyros para a Europa. E logo depois fizeram uma versão bem-sucedida de "A Filosofia na Alcova", do Marquês de Sade, que ganhou versões em francês e inglês."Eu trouxe comigo muita coisa de minha experiência com Kazuo Ohno e outros mestres japoneses", diz Baiocchi. "Mas estava em minha terra, queria falar das coisas em que acredito, e de tal modo que o público não formado pelas academias pudesse ver." Por essa razão, no ano passado o Taanteatro transformou Esperando Godot em espetáculo de rua. "A resposta que tivemos foi ótima. As pessoas sabem ouvir. E entendem."Baiocchi, autora, entre outros, de Artaud, Onde Deus Corre com Olhos de Mulher Cega (1996), diretora de Primeiro Fausto (1999), de Fernando Pessoa, e das demais produções do Taan, diz que ao abordar esses temas quer multiplicar uma experiência singular. "Gosto muito de poesia e de filosofia. Quero mostrá-las como eu as entendo, de um modo claro, para que todos possam perceber por que são importantes.""Temos pensado muito em nossa trajetória, no significado de nosso trabalho", diz Cabral. "A história tem dois lados. Um é o desenvolvimento do projeto artístico, de um método que chamamos de teatro veloz." Outro foi o aprendizado de produção. "Tivemos que entender como fazer para poder ter as peças em cartaz." Todas as realizações dos Satyros são bancadas por leis de patrocínio municipais, estaduais e federais.Os dois grupos têm estruturas pequenas. Seis pessoas formam o núcleo dos Satyros. Quatro integram permanentemente o Taanteatro. "O número de atores varia muito em cada montagem. Para os elencos, convidamos principalmente os atores que fazem workshops conosco", diz Maura Baiocchi. "Ainda não conseguimos formar um elenco estável", diz Ivam Cabral. "Muitos atores ficam conosco por uma, duas produções, e depois vão embora. São poucos os que estão na equipe há muito tempo. Um dia vamos ter um elenco fixo."O que os Satyros trouxeram de mais importante de sua experiência internacional foi a percepção de que "o teatro é universal". Cabral diz que foram de "Lisboa à Rússia, nos apresentamos em toda a Europa, e descobrimos que o que tínhamos falado no Brasil, eles entendiam lá. No começo, fazíamos versões das peças para o inglês. Depois percebemos que não era necessário. O público sabia do que estávamos tratando." Com ele concorda Maura Baiocchi, que dançou em vários países da Europa, além do Japão. "É a força do artista que importa", diz. Deve falar da força que tem mantido as duas trupes em pé.

Agencia Estado,

21 de setembro de 2001 | 17h08

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