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Duas tribos sob o céu

Lang Lang e Ting Ting pregavam compaixão, mas tinham visões irreconciliáveis: cada uma considerava insuportável o mundo da outra

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2021 | 03h00

No coração da Sibéria, duas aldeias estavam separadas por um belo rio e tinham cotidiano material similar. Dependiam de vacas e das ovelhas, plantavam trigo, repolhos e nabos. Vinham tentando aumentar o cultivo do girassol para produzir óleo, mas o verão era curto demais ali.

Eram próximos nas roupas, na aparência e na comida. O que variava, e muito, era a cultura social de cada uma. A tribo dos Lang Lang acreditava em regras claras e naquilo que poderíamos, grosso modo, traduzir como “a lógica da natureza”. Os Ting Ting pregavam a compaixão e a busca coletiva da felicidade. Como isso funcionava?

Os pais Lang Lang diziam aos filhos que não voltassem tarde, pois havia lobos e o frio da noite era fatal naquele lugar a partir de outubro. Alguns adolescentes desobedeciam e, na maioria das vezes, eram estraçalhados por lobos famintos ou, simplesmente, congelavam com o vento da noite. Ao encontrarem os corpos dos infratores, as famílias reforçavam: “é a lógica da natureza, eles sabiam dos riscos e não quiseram ouvir”. Alguns lembravam que era bom assim, pois teriam crescido como desobedientes das normas do grupo e seriam um incômodo para a aldeia no futuro. Eram incapazes de observar o óbvio e, por consequência, não eram aptos à vida adulta na aldeia. O mundo siberiano era duro, implacável e não dava uma segunda chance para lobos, ursos ou humanos. O bem do grupo não poderia ser comprometido pela irresponsabilidade de alguns. “Fizeram a escolha deles”, diziam os mais velhos. Os pais choravam, porém... concordavam. Era a lógica da natureza, era necessário aceitá-la. 

Os Ting Ting eram opostos na estratégia social e educativa. Acreditavam que segundas e terceiras chances eram indispensáveis. Quando um adolescente não voltava a tempo para casa, enviavam grupos armados para que espantassem os lobos e toda a aldeia se envolvia na busca. Salvaram muitos assim, ainda que perdessem também membros valiosos da coletividade nas missões de resgate. Acreditavam que a comunidade era responsável por todos e, se alguém tinha desobedecido normas claras, era um fracasso da pedagogia social, incapaz de transmitir os valores coletivos.

O século 20 tinha começado há pouco e os dois grupos, tão similares na aparência e no modo de vida, eram opostos absolutos na visão de mundo. “Que cada um receba os prêmios e os castigos por suas escolhas” era o guia da vida Lang Lang. “Somos uma comunidade que só será feliz em conjunto”, proclamavam os Ting Ting. Dois mundos agropastoris cercados de pinheiros, neve e lobos; duas sociedades absolutamente distintas. 

Nos festivais da colheita, a comemoração atingia as duas comunidades. O trigo maduro e a bebida pareciam irmanar a todos. Com o álcool crescendo, as línguas perdiam o freio. Se era um bêbado Ting Ting que caía, os da outra tribo recomendavam que chamasse todas as famílias para ajudá-lo. Quando uma mulher Lang Lang não conseguia carregar uma cesta pesada de maçãs, as crianças do outro grupo ironizavam e cantavam “lógica da natureza, lógica da natureza...” Cada grupo usava o outro como recurso. “Não chore assim, você parece uma Ting Ting” diziam as mães da aldeia rival. “Meu marido parece um Lang Lang, só pensa nele”, reclamava uma mulher para suas amigas Ting Ting. 

Eram visões irreconciliáveis. Cada um considerava insuportável o mundo do outro. Para um, o distinto era de um egoísmo brutal; para outro, os rivais eram fracos. A terra era gelada e dura com os seres vivos, dando poucos grãos para os aldeões das duas margens do rio. A manteiga era boa, no entanto, muitas vacas não tinham o que comer em quase seis meses de frio forte. O vento gelado e a neve eliminavam muitos animais, inúmeros velhos e crianças fracas. 

Chegamos ao verão de 1908. O rio da aldeia era o Tunguska, conhecido também como Rio Pedregoso. As pessoas de ambas as aldeias buscavam água no rio naquele dia abafado de junho. Houve um clarão no céu e um som forte que abalou os ícones votivos das casas. Depois, um estouro como se mil bombas estivessem sendo explodidas ao mesmo tempo. O mundo das duas aldeias deixou de existir. Por milhares de quilômetros quadrados, só a madeira carbonizada dos pinheiros. 

O mundo conheceria aquele dia de 1908 como “evento Tunguska”. Um objeto celeste colidiu com a Terra. Tivesse sido em área muito habitada, seria o maior desastre da história. Caiu no coração da Sibéria. Eliminou pouca gente. As obscuras aldeias Lang Lang e Ting Ting eram desconhecidas. Nunca foram registradas em censos ou despertaram qualquer atenção dos funcionários czaristas. Não possuíam um padre ortodoxo ou ligações com as obras da ferrovia Transiberiana. O desastre celeste foi muito estudado depois, porém nada restara dos dois pequenos grupos humanos. As casas e seus sistemas de vida opostos tinham evaporado em poucos segundos de terror. Solidários e individualistas tinham sido evaporados. Nem ossos ou memórias sobreviveram. 

Minto. Sobreviveram dois adolescentes, um de cada grupo. Haviam se encontrado nadando no rio no dia anterior e decidiram brincar sobre um tronco que flutuava. A correnteza foi forte e ambos, distraídos, foram sendo levados até o rio Yenisey. O descuido salvou a vida de ambos. Viram a explosão poderosa ao longe e se abraçaram por um longo tempo. A última Lang Lang se apaixonou pelo derradeiro Ting Ting. O filho, entre a solidariedade e o individualismo, virou social-democrata. Quando o menino debatia qual o melhor sistema político, os pais apontavam para o céu e diziam que a decisão estava nos astros. Boa semana para todas as tribos.

* Leandro Karnal é historiador, escritor, membro da Academia Paulista de Letras, autor de O Dilema do Porco-Espinho, entre outros

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