Duas OSBs e um só foco no futuro

Grupo formado por músicos demitidos e recontratados faz primeiro concerto

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2011 | 03h09

No concerto do último sábado no complexo de favelas do Alemão, o maestro Roberto Minczuk apresentou a Orquestra Sinfônica Brasileira "de todos". Mais do que uma referência à integração, pela música, da população local - até um ano atrás dominada por traficantes de drogas -, à cidade formal, "culta", ele prenunciava uma nova fase da OSB, que busca superar o conturbado 2011 para seguir em 2012 sua trajetória de 71 anos de sucesso.

Foi um ano que começou muito mal, com a queda de braço entre parte dos músicos, alguns com décadas de casa, e a direção da orquestra, que instaurou um sistema de avaliação que eles consideraram humilhante. Seguiram-se seis meses de protestos e negociações no Ministério do Trabalho. O meio musical se solidarizou e se pôs contra a OSB. Artistas de renome, como Nelson Freire, cancelaram participações. Concertos? Só em agosto, e com parte dos músicos contratados temporariamente.

Em abril, regendo a OSB Jovem, Minczuk, idealizador das provas, chegou a ser vaiado no palco do Teatro Municipal, do qual era diretor artístico. A distensão só veio em setembro, quando as partes assinaram acordo e o grupo que havia sido demitido por justa causa foi reincorporado. Como os instrumentistas não aceitavam mais trabalhar com o maestro, e não haviam passado pelas audições, criou-se a OSB Ópera & Repertório, novo corpo orquestral, com 37 integrantes, que vai se dedicar a um repertório operístico e apresentações de câmara.

A estreia é hoje, com dois concertos, às 12h30 e 19 horas, no Centro Cultural Banco do Brasil, só com as 20 cordas do grupo. Amanhã, entram os metais. No domingo, os músicos todos, com coro, se apresentam na Igreja da Candelária. O programa dos três dias varia, mas todos têm clima festivo, com o Concerto de Natal, de Arcangelo Corelli, Jesus, Alegria dos Homens, de Bach, e a Cantata de Natal, de Ernani Aguiar.

"Estamos muito felizes, o clima está excelente. Criamos uma cumplicidade muito grande. E o fato de agora participarmos das decisões faz toda a diferença", contou a violinista Deborah Cheyne, que, como presidente do Sindicatos dos Músicos, conduziu as negociações. "São músicos de muita qualidade, que estão motivados para uma nova etapa", disse o regente convidado, o violinista Daniel Guedes.

Os ensaios começaram há duas semanas, no Clube Israelita Brasileiro, em Copacabana, cerca de 20 quilômetros distante da Arena, na Barra, onde ensaiam os 68 instrumentistas da OSB - os remanescentes somados aos incorporados nos últimos anos (brasileiros, norte-americanos, europeus), em fase de adaptação.

São dois grupos apartados, de regimentos internos e salários distintos, cujos repertórios vão se complementar, ressalta o presidente da Fundação OSB, Eleazar de Carvalho Filho. "Até março vamos divulgar a programação das duas orquestras. Queremos dar destaque a ambas. Foi um ano desafiador, mas conseguimos fazer 85 apresentações e estamos voltando ao caminho que queríamos. O tempo vai ajudar a cicatrizar."

O esforço para pôr a OSB O&R para tocar ainda em 2011 é nítido. "Estamos muito ansiosos. Conseguimos resolver os problemas e colocar nossos corpos artísticos trabalhando a todo vapor", resumiu Fernando Bicudo, chamado em julho para a direção artística, com Pablo Castellar, no lugar que era de Minczuk. O regente titular, que não concede entrevista há meses, segue sem dar declarações.

Segundo Ricardo Levisky, o diretor de negócios, a crise não maculou a imagem da OSB junto aos três mantenedores e 16 patrocinadores, que garantirão o orçamento de R$ 32 milhões, podendo chegar a R$ 40 milhões.

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