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Duas noites espantosas

Fomos devorados pelo filme do Glauber. Espantoso, sem seguir as regras de edição e de sequência de tempo

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2022 | 03h00

Não fosse a crônica de Sérgio Augusto, eu passaria batido por uma noite histórica. A da estreia em São Paulo de Deus e o Diabo na Terra do Sol, em 1964, antes do golpe. Foi no Cine Windsor, na esquina da Avenida Ipiranga com a Rua do Boticário. Na época, uma das salas de luxo do centro. Hoje, nem sei se aberto, depois de total decadência e muitos pornôs.

O filme chegava precedido pelo mito Glauber Rocha. Dele se pode dizer que foi mesmo gênio, e para mim basta este filme que estourou minha cabeça e a de todos os jovens que estavam naquela sala, ansiosos. Noite comparável foi a estreia de Doce Vida, de Fellini, no cine Coral. Nas duas, estava a plateia que frequentava a Cinemateca, os cines Coral, Jussara, Bijou, Apolo, assistia aos festivais de cinema com o uniforme da época, calça e blusão jeans. A noite de Glauber foi de rebeldia. O complemento nacional era do Primo Carbonari com seu Amplavisão Filmando Ao Brasil Vai Informando. Com toneladas de matérias pagas oficiais e chatas, Primo não “combinava” com aquela noite da intelligentzia rebelde, daquela juventude “remplie de soi-même”, ansiosa pelo novo, intelectuais que se achavam. Veio portentosa raiva que só terminou quando interromperam a projeção. 

Daquela noite, lembro-me dos nossos gurus Almeida Salles, Paulo Emílio, Rudá de Andrade, Jean-Claude Bernardet, Caio Scheiby, Capovilla, Roberto Santos, João Batista de Andrade, Rogério Sganzerla, que se casaria com a mulher que todos desejávamos, Helena Ignez, musa loira de minha coluna de cinema (a morena era Joana Fomm), depois minha amiga. Naquele momento, ampliou a veneração que tínhamos por Odete Lara, que se tornou cult, palavra que ainda não existia na gíria intelectual.


Fomos devorados pelo filme do Glauber. Espantoso, sem seguir as regras de edição, sequência de tempo, ele nos mostrava que um filme (ou livro – para mim) era liberdade, rompimento, era tudo de acordo com aquela época política fervente que deu no que deu. A linguagem é aquilo que você quer que seja, nos disse Glauber. Ficamos maravilhados, aplaudimos e na saída nem tínhamos o que dizer, impactados. Carbonari circulava raivoso, querendo bater em todos que sempre o criticavam. Assombrados, esticamos nos lugares habituais, Paribar, Jeca, Clubinho dos Artistas, Barbazul, Gigetto, Redondo, assombrados. Eu estava com os primeiros momentos do meu romance Zero na cabeça e defini a estrutura, ao lado de Oito e Meio, de Fellini. Depois, eu me encontrava com Glauber certas manhãs de domingo na Telefônica da rua Sete de Abril, de onde ligávamos para nossas mães, eu Araraquara, ele Salvador. Dei um Zero para ele. É um livro glauberiano. Ele se foi aos 42 anos. Nunca soube se leu. 

* Ignácio de Loyola Brandão é jornalista e escritor, autor de Zero e Não Verás País Nenhum.

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