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Duas mostras de Nelson Felix questionam os limites da produção artística

Até onde pode ir a dimensão reflexiva de uma obra de arte, sem que ela perca sua força sensível e se transforme num teorema descarnado? A questão tem grande pertinência, sobretudo no momento em que a arte contemporânea, de tanto evitar a pecha de ingenuidade, assemelha-se a um escorpião encurralado: prefere morrer pelo próprio veneno a deixar-se apanhar. Gerhard Richter, um dos mais bem-sucedidos artistas contemporâneos, duvida tanto da pintura que é de se perguntar por que ainda continua a pintar.

Rodrigo Naves - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2013 | 20h20

Acredito que os trabalhos apresentados por Nelson Felix em suas duas exposições (na Galeria Millan e no Instituto Tomie Ohtake) movem-se no fio perigoso desta navalha, conhecendo o risco que correm e a estreita margem de manobra que resta a esse tipo de interrogação, embora procurem dar outra saída à pergunta, como têm feito outros importantes artistas de nossos dias.

Uma circularidade problemática sempre foi presença forte em sua obra, exercendo essa função inquisitiva. Numa dimensão modesta, a questão surgia, por exemplo, em O Grande Budha (1985-2000), um trabalho no qual garras de latão eram dispostas circularmente ao redor de um mogno, uma árvore centenária perdida em meio à Floresta Amazônica. À medida que o tronco crescia, as garras penetravam-no, tornando perceptíveis tanto seu crescimento quanto uma força que, sem essa oposição, jamais se mostraria. E ambos (crescimento e força) irão potencializar a circularidade rude do mogno. Em outras palavras, a própria gênese dos volumes, elemento central da escultura, se mostrava a nossos olhos.

A simples circularidade, ou seja, o voltar-se sobre algo, ao mesmo tempo que é condição para o entendimento, pode conduzir a uma posição oposta. A expressão “andar em círculo” é sinônimo de descaminho e há pouca sabedoria no cão que tenta morder a própria cauda. Em arte, penso que, para adquirir relevância, o movimento de voltar-se sobre algo (reflexão) precisa apontar e problematizar seus próprios limites. Uma atividade cuja grandeza está tão intimamente ligada aos sentidos, a arte, tem, em sua própria constituição, algo avesso ao entendimento.

O mero crescimento de uma árvore não tem nada a ver com a compreensão de um processo nem com a arte. Cercada de maneira regular (circularmente) por balizas que evidenciam sua expansão, irá adquirir uma presença nova, nem simplesmente natural nem objeto domesticado: algo que poderíamos chamar arte, possivelmente para escândalo do crítico de arte Ferreira Gullar.

Neste exemplo, a evidenciação de um processo natural (o crescimento) não é realizada pelas vias convencionais (uma fita métrica, por exemplo), e sim por procedimentos que põem em relevo a força e a opacidade do mundo material – do qual, aliás, também fazemos parte – sempre rebaixadas pela oposição que privilegia a (suposta) transparência e leveza do espírito.

Logo que entramos na sala principal da mostra na Galeria Millan, dois grandes anéis de mármore chamam nossa atenção. Já a disposição dos dois aros, enviesados, retira deles parte da dinâmica sugerida pelos círculos, o que intensifica sua presença material e, assim, reduz o estatuto de pura forma. As hastes que quase tangenciam os anéis funcionam visualmente como as ferramentas do torno que os fabricaram, supondo uma fricção áspera que nada tem de espiritual.

No andar superior, outros aros de mármore, bem menores, repousam sobre o piso, alguns deles sobrepostos. Definitivamente, aquele conjunto de roldanas não irá mover-se. A construção de um volume pleno, dotado de “movimento” e belas proporções – um ideal perseguido pela escultura desde os gregos – fracassou. Restam apenas os fragmentos que testemunham aquele empreendimento frustrado.

Quando voltamos ao piso térreo, depois de uma primeira visada ao conjunto da exposição, temos a impressão de que tudo mudou, justamente em virtude dos empecilhos que o artista criou para que aquele sistema de circularidades operasse harmonicamente. O anel recostado na parede resume bem o processo do trabalho: cansado do esforço vão de por em movimento uma sequência de objetos que prometia uma dinâmica plena, ele descansa, tentando se recuperar do longo esforço. Só falta o cigarro no canto da boca.

Na exposição do Instituto Tomie Ohtake dezenas de desenhos e algumas poucas fotos testemunham o longo trajeto (também ele circular) que o artista percorreu para chegar à complexidade desse conjunto. São outros tantos fragmentos fundamentais para a compreensão de um processo que põe em xeque as incursões tradicionais da própria compreensão.

RODRIGO NAVES É ENSAÍSTA.

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