Duas interessantes visões do colonialismo europeu

Graças ao Festival 4 + 1, o cinéfilo paulistano tem hoje a oportunidade de confrontar mais uma visão do colonialismo europeu. Em Minha Terra, África, Claire Denis trata do colonialismo francês no continente negro. A novidade de Un Barrage Contre le Pacifique é que um autor do Camboja, Rithy Panh, adapta o romance de Marguerite Duras que, no original, se passa na Indochina francesa, justamente o atual Camboja. Em ambos, e é a maneira mais óbvia de juntar esses filmes, o papel da matriarca é interpretado pela mesma atriz, Isabelle Huppert.

Luiz Carlos Merten BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Talvez seja interessante assinalar que, no fim de 1950, René Clément já havia adaptado o livro de Duras, resultando em Terra Cruel, pelo qual o diretor não tinha muito apreço, queixando-se da interferência dos produtores. Logo em seguida, a própria Duras escreveu o roteiro de Hiroshima, Meu Amor e, incentivada por Alain Resnais a fazer literatura, sentiu-se de tal maneira tomada pela febre do cinema que virou cineasta.

Barrage é sobre uma mãe cujo casal de filhos, já crescido, resolve cair no mundo. Com isso, enfrenta um triplo problema, pois já vive em guerra com as corruptas autoridades coloniais da Indochina e briga com a própria natureza, construindo uma barragem para represar as águas que ameaçam suas terras e plantações. Em entrevistas, o diretor Panh tem dito que, a despeito de diferenças de tempo e cultura, ele sente que possui uma misteriosa e particular ligação com Duras. O que o atrai na escritora - e foi o que ele quis colocar em seu filme - é o olhar. Duras, Segundo ele, possui um olhar sem julgamentos nem simplificações. É como se ela fosse uma igual, imbuída da mesma compaixão.

Un Barrage Contre le Pacifique (Uma Barragem Contra o Pacífico) não é tão bom quanto Minha Terra, África, mas será interessante, a par de qualquer comparação entre os dois filmes, e autores, apreciar a sutileza das interpretações de Isabelle Huppert. O festival promovido pela Fondación Mapfre - espanhola, e não argentina, como saiu ontem no texto de apresentação - exibe hoje uma impecável seleção de filmes, para cinéfilo nenhum botar defeito. Ela começa com Independencia, do filipino Raya Martin, um belo drama (minimalista e experimental) que não preciosa mais do que uma mãe e seu filho, numa cabana na floresta, para contar a história das guerras, também coloniais, no país.

Logo em seguida, Irêne, de Alain Cavalier, é o delicado tributo do diretor à sua ex-mulher, a atriz Irêne Tunc, que morreu há mais de 30 anos. Antes de chegar a Barrage, no fim da noite, o espectador poderá ver dois filmes de diferentes procedências. Sweetgrass, de Larry Overcast, é uma bela elegia aos últimos caubóis do Oeste, acompanhando um rebanho de ovelhas em Montana. Treeless Mountain, do coreano Kim So-yong, faz outra viagem, seguindo duas irmãs abandonadas pela mãe e confiadas aos cuidados da avó, na região montanhosa, sem árvores, do título. Com exceção de Irêne, que leva o espectador numa viagem interior (no tempo) e, talvez de Sweetgrass, todos esses filmes realizam viagens no espaço para falar de família e organização social.

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