Duas horas de magia com o piano de Lewis

Recital do pianista inglês dedicado às últimas sonatas de Schubert na Sala São Paulo é o melhor da temporada

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2013 | 02h10

Schubert não era um grande pianista, talvez por causa das mãos pequenas, dedos rechonchudos e curtos, mas sua produção para o instrumento é espantosamente original. Seu toque imitava a música vocal, diziam até que o piano cantava sob seus dedos. "Se isso for verdade", escreveu Schubert, "ficaria muito feliz". Usava instrumentos leves, cujos teclados favoreciam o chiaroscuro e a meia-voz, sutilezas de toque e timbres. A sua é uma música íntima e quase sempre angustiada. As três últimas sonatas, escritas em seus dois meses finais de vida, entre setembro e novembro de 1828, constituem um desafio descomunal para qualquer pianista moderno que se aventure a apresentá-las em um só recital. Paul Lewis percorre o mundo há seis meses tocando-as - desafio que só um Arthur Schnabel instituiu na primeira metade do século passado, proeza também praticada por Alfred Brendel, mestre de Lewis. Só a ambição da empreitada não bastaria, mas, aliada a uma admirável performance, transformou seu recital, na tarde de anteontem, na Sala São Paulo, no melhor desta temporada.

Lewis usa pouco o peso dos braços; mantém o dorso quase imóvel, a paleta de toques é obtida pela pressão das mãos, ideal para uma música que exige impulsos breves e precisos. Jamais liga o piloto automático por causa da ausência relativa de obstáculos técnicos; ao contrário, investe uma tensão visceral na condução de uma música que brinca com harmonias intrincadas e inesperadas, acena com instabilidades cromáticas - tudo regado ao inconfundível cantabile de Schubert. É preciso vê-lo em recital para sentir como o peso dramático-narrativo das pausas, intenso ao vivo, empobrece nas gravações, porque, afinal, pausa é gesto também visual. Ao vivo, ele também amplia os contrastes dinâmicos.

Dois exemplos, um explosivo, outro sutil, que comprovam sua arte única. O breve Andantino da Sonata D. 959 contém cerca de 2 minutos centrais explosivos: um tremolo obsessivo inaugura uma passagem premonitória da música do século 20, parece até Stravinski, com uma profusão de acordes, escalas, oitavas, um caos harmônico e formal. A tensão, até então psicológica, torna-se muscular, choca os ouvidos. Lewis acentuou a modernidade, assim como desarmou uma armadilha no sublime Andante Sostenuto da D. 960: a mão direita mantém uma voz lentíssima enquanto a esquerda faz diversas figurações rápidas. Ou seja, para nossos ouvidos a música deve soar contemplativa, zen, mas o pianista mantém uma atividade multiforme.

Quase 2 horas raras e mágicas de música e musicalidade beirando, ambas, à perfeição.

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