Duas gerações, a mesma visão

As atrizes Nydia Licia e Karen Coelho falam sobre os mesmos papéis que ambas já defenderam no teatro

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2010 | 00h00

Vivências. Em uma tarde, um passeio por muitos marcos do teatro paulista no último século

 

 

Ela está certa de ter nascido na época errada. Aos 25 anos, Karen Coelho parece sentir saudade de um tempo que não viveu. Imagina-se andando pelos corredores do TBC - o Teatro Brasileiro de Comédia. Pensa, às vezes, em como seria ver Franco Zampari, o grande mecenas e produtor italiano, levantando o velho teatro da Rua Major Diogo, e no deslumbre de ser dirigida pelos encenadores que ele importou da Europa naqueles anos: Ruggero Jacobbi, Adolfo Celi, Flaminio Bollini.

 

Em cartaz com Olhe para Trás com Raiva, peça que carrega todo o desencanto do pós-guerra na década de 1950, Karen paira como uma estranha no ninho da cena teatral contemporânea.

 

Devota dos densos dramas do teatro realista do século 20, discorre com desenvoltura sobre a psicologia das personagens, tece elucubrações sobre as intenções do texto e passa ao largo das discussões sobre o teatro pós-dramático ou os novos paradigmas da dramaturgia. "Às vezes, não consigo conhecer gente da minha idade com quem conversar. É uma cumplicidade muito rara", diz a atriz, explicando ter encontrado uma interlocutora em Nydia Licia, a italiana que nasceu em 1926 e foi uma das grandes damas dos anos de ouro do TBC, ao lado de Cacilda Becker, Cleyde Yáconis e Tônia Carrero.

 

A convite do Estado, Karen esteve na casa de Nydia na última semana e, finalmente, concretizou seus planos de conhecê-la. O desejo era antigo, acalentado desde o ano passado, ao perceber uma coincidência em suas trajetórias. Ainda durante os ensaios de Zoológico de Vidro, ela descobriu que, na primeira versão brasileira para o texto de Tennessee Williams, havia sido Nydia quem interpretara o seu papel: a frágil e doente Laura. Neste ano, quando Karen estreou Olhe para Trás com Raiva, lá estava Nydia Licia de novo. Na única vez em que o texto foi montado no Brasil, coube justamente à atriz do TBC encarnar a submissa Alisson, protagonista do drama de John Osborne. "Desde então, tenho muito vontade de encontrá-la. Mas não sabia onde ela estava, o que estava fazendo e nem podia imaginar que estivesse ainda tão atuante: dando aulas, preparando atores."

 

Regada a café, a conversa entre as duas - a jovem e a veterana atriz - atravessou uma tarde inteira e passeou por muitos dos marcos do teatro paulistano do últimos século: o método preciso com que Ziembinski conduzia suas peças e seus atores, a estreia de Nydia no Teatro Municipal dirigida por Alfredo Mesquita, o casamento com Sergio Cardoso e a companhia que construíram juntos.

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