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Duas estrelas no turbilhão da vida

Biografias de Jeanne Moreau e Annie Girardot, editadas na França, revelam antinomias e pontos de aproximação

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2011 | 00h00

Novos livros editados na França iluminam a trajetória de duas grandes atrizes. Annie Girardot: Le Tourbillon de la Vie, O Turbilhão da Vida, de Agnès Grossmann (Hors Collection, 300 págs), não apenas reconstitui a experiência da estrela no cinema e no teatro como revela detalhes dolorosos de sua fase final, marcada pelo esquecimento produzido pelo Alzheimer. Annie morreu em Paris, na madrugada de 28 de fevereiro. Jeanne Moreau resiste, firme e forte. L"Insoumise, a que não se submete (Flammarion, 410 págs). A nota da editora define o livro de Jean-Claude Moreau como o relato do "turbilhão de uma vida".

Jeanne Moreau tem sido comparada a um turbilhão - de mulher, de atriz -, desde que, há 50 anos, estrelou Jules et Jim, que François Truffaut adaptou do livro famoso de Henri-Pierre Roché. O filme foi lançado no Brasil como Uma Mulher para Dois. É uma obra-prima de politesse francesa. Jeanne faz a terna e cruel Catherine, por quem se apaixonam dois amigos. Numa cena famosa ela canta Tourbillon, Turbilhão.

Filha de pai francês (barman) e mãe inglesa (bailarina), Jeanne Moreau nasceu em Paris. Bilíngue, foi criada na França e virou atriz francesa, mas é a primeira a admitir que seria atriz inglesa, se tivesse sido criada na Inglaterra. Atriz, sem sombra de dúvida. Jeanne cursou o Conservatório, com passagens pela Comédie Française e pelo Teatro Nacional Popular de Jean Villar, onde contracenou com o mito Gérard Philippe. Desde cedo, interessou-se pelo cinema.

Mesmo tendo sido a primeira rainha Margot - no filme de Jean Dréville, de 1954 -, Jeanne foi sempre uma mulher moderna. Os críticos gostavam de compará-la a Brigitte Bardot. Jeanne seria a BB mais intelectualizada. Como tal, ela se ligou à nouvelle vague (com Louis Malle e Truffaut) e estrelou obras cultuadas de Michelangelo Antonioni, Joseph Losey, Orson Welles e Luis Buñuel, entre outros grandes diretores. Seu prestígio internacional levou-a a ser a primeira atriz não norte-americana a ser capa da revista Time. Nem BB nem Sophia Loren, duas mega estrelas, além de mitos eróticos, tiveram a honraria.

O livro de Moreau é pródigo em histórias. Ele disseca duas cenas que ajudaram a esculpir o mito Moreau - o passeio da atriz pelos Champs Elysées em Ascensor Para o Cadafalso, de Malle, 1957; e a famosa cena de sexo oral em Amantes, também de Malle, 1958. O que o caminhar de Jeanne tinha de tão fascinante? Algo tinha, pois Buñuel e Antonioni a escolheram para seus filmes justamente por aquela cena. A ligação com Pierre Cardin, as amizades com grandes diretores, a predileção da Jeanne cantora por compositores brasileiros, a homenagem que recebeu no Festival do Rio, Moreau conta tudo. Entre as revelações inesperadas, duas a ligam a Annie Girardot.

O cineasta greco-francês Nico Papatakis sonhava com as duas, Jeanne e Annie, na sua adaptação de Les Bonnes, de Jean Genet. E Luchino Visconti teria escrito o papel de Nadia, em Rocco e Seus Irmãos, para Jeanne. Só depois que ela declinou da proposta - presa a outro contrato -, foi que o mestre italiano, decidido a ter uma estrela francesa, optou por Annie. O que teria ocorrido se Jeanne tivesse sido Nadia? Rocco e Seus Irmãos continuaria a ser um grande filme, Annie teria obtido reconhecimento pelos papeis em filmes de Claude Lelouch (Viver a Vida e O Homem Que Eu Amo), mas sua vida teria sido diferente.

Filha de uma parteira, Annie estudou enfermagem, antes de descobrir que sua vocação era ser atriz. Durante a filmagem de Rocco, apaixonou-se por Renato Salvatori. Amaram-se loucamente. Casaram-se e tiveram uma filha. Ela não suportava as traições do marido - tornou-se permissiva, indo para a cama com não importa quem, para mostrar que também era livre. Feriram-se demais, mas não conseguiam viver separados. Voltaram várias vezes, até a morte dele, por cirrose, em 1988.

Jeanne e BB, tão semelhantes - na insubmissão -, estrelaram juntas Viva Maria, de Malle, em 1965. BB e Annie, tão diversas - uma libertária, a outra, o protótipo da mulher mais reprimida -, também trabalharam juntas, em As Noviças, de Guy Casaril, em 1970. BB gostava tanto de Annie que escreveu, com dor no coração, o prefácio do livro de Agnès Grossmann. Annie teve a primeira manifestação do Alzheimer em Montevidéu, onde foi apresentar a peça Master Class. No palco, ficou confusa, esqueceu o texto. Sua condição só foi piorando. Na clínica, também estrava internado seu irmão, vítima de Alzheimer, como ela. Conviveram durante anos, sem se reconhecer. Lelouch, num depoimento emocionado, disse que ela permanecerá como sua mais bela lembrança, de homem e diretor.

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