Duas cadeias douradas e uma libertação

Críticas:

O Estado de S.Paulo

09 de março de 2012 | 03h08

Luiz Carlos Merten

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Dois conceitos, um filosófico (a discussão sobre objeto e sujeito) e outro estético (a incorporação de elementos experimentais a uma narrativa tradicional de Hollywood), impulsionaram Madonna na realização de W.E. Antes que você comece a ironizar, vale lembrar que o primeiro longa da artista, Filth and Wisdom, já tinha o pé na contracultura (nos anos 2000!) e rezava na cartilha de Jean-Luc Godard, por quem ela é louca (o autor, não o homem).

Como todo experimento, W.E. é ambicioso. Algumas coisas podem ter saído errado, mas o saldo é amplamente positivo. Madonna é, queiram ou não - gostem ou não -, uma verdadeira cineasta. E, como diz Alek Keshishian na entrevista, ousa. Existem momentos de W.E. em que as duas Wallis - a que viveu a história de amor com o rei, no passado, e a contemporânea, cujo conto de fadas (o marido rico e famoso) se revela uma cadeia dourada - interagem, cruzando-se em cena. É impossível do ponto de vista realista, mas - a afirmação foi feita por Keshishian, embora não conste da entrevista - é uma coisa muito europeia, o tipo de solução que você encontra em produções de vanguarda da França, da Suécia, mas não em Hollywood.

Duas frases são muito interessantes. Alguém observa que o rei foi possuído por Wallis e a própria Mrs. Simpson diz à Wallis moderna que não deve deixar que as pessoas lhe façam mal. Temos de novo o conceito estético e o filosófico. Independentemente de gostar, ou não, o balé das mãos na cena em que Wallis prepara o martíni para Edward é brilhante. Só ela já vale o filme e Keshishian esclarece que se trata de pura mise-en-scène, uma invenção da diretora. As mãos remetem à ideia da manipulação, os personagens viram marionetes uns dos outros, todo o filme está ali.

A outra ideia - fortaleça-se, não se fragilize - remete aos temas do objeto e do sujeito e, com certeza, tem sido uma norma da própria Madonna, em seus embates com a mídia e a opinião pública. Quando mostra a invasão da mídia e a perda da privacidade (de Wallis Simpson), ela sabe do que está falando. W.E. é sobre o quê? Sobre o amor imperfeito. Edward escraviza Wallis e faz da sua infelicidade uma coisa profunda, ontológica (metafísica?). Evgeni liberta a outra Wallis ao satisfazer seu desejo de maternidade. A questão de ser mãe é essencial nas duas épocas do filme. E as atrizes - Andrea Riseborough e Abbie Cornish - são ótimas.

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