Duas Américas

Mitt Romney, que certamente será o concorrente republicano à Presidência dos Estados Unidos, está certo quando diz exaltadamente que a eleição de novembro decidirá a "alma" do país. Quanto mais penso na escolha entre Barack Obama e Mitt Romney, mais fico convencido de que há dois Estados Unidos.

Lee Siegel,

16 de janeiro de 2012 | 05h53

 

Alguns os chamam de "azul" e "vermelho". Alguns de "liberal" e "conservador". Antes e até muito depois da Guerra Civil, eles eram chamados de "norte" e "sul". Mas categorias são imprecisas e redutoras. Categorias subentedem que uma é boa e outra, ruim - a depender da categoria à qual a pessoa pertence. Prefiro definir as duas classes de pessoas nos Estados Unidos antes por seus valores existenciais que por sua localização política ou geográfica. Nesse sentido, um conjunto de valores é tão bom ou ruim quanto a pessoa que o pratica.

 

A diferença mais óbvia entre as duas classes é que a crença em Deus é central para uma delas. Para a outra, é periférica ou inexistente. A maioria das demais divisões entre elas parte dessa diferença fundamental.

 

Os crentes tendem a acreditar que a vida de uma pessoa é uma história repleta de sentido. Eles veem a vida como uma história significativa em que eventos estão destinados a ocorrer. Eles poderiam ser chamados de gente "narrativa". Vivem de minuto a minuto buscando o significado, não o prazer.

 

Os não crentes, ou agnósticos cosmopolitas, acreditam que a vida é absurda. Eles veem a existência como a soma de eventos isolados que não levam a nada. Poderiam ser chamados de gente "episódica". Eles vivem de minuto a minuto perseguindo o prazer, não o significado.

 

Nenhum dos lados aprova o outro, mas ambos têm suas vantagens e desvantagens morais. As pessoas que acreditam que a vida é uma história com heróis e vilões têm, com frequência, a força para se opor a valentões e a regimes repressivos. Aqueles que acham que a vida é absurda, com frequência sentem que passividade e indiferença são respostas justificáveis ao mal. Por outro lado, "narrativistas" podem ser pouco tolerantes com as narrativas alheias, enquanto episódicos podem combater a injustiça de qualquer narrativa que não tolere maneiras rivais de olhar a vida.

 

E há os crentes no inconsciente, e aqueles para os quais o inconsciente não existe. Os primeiros são normalmente religiosos enquanto os últimos não são, mas nem sempre é assim. A diferença entre eles, no entanto, é profunda.

 

Para os crentes no inconsciente, a vida sempre se reduz a motivações psicológicas. Os apóstolos do inconsciente têm dificuldade de aceitar a autoridade porque veem toda autoridade como sendo movida por motivações ulteriores, egoístas. Por outro lado, os que acreditam que a dimensão espiritual das pessoas é mais fundamental que sua constituição psicológica tendem a não olhar por trás da capa exterior da autoridade.

 

As consequências morais de cada um dependem das autoridades em questão. Uma diferença final: um grupo mede caráter por sinceridade, o outro, pela capacidade de ironizar. Sinceridade significa narrativa, narrativa traz significado, e significado estabelece autoridade. Ironia proclama absurdez, absurdez volta - separa prazer, e prazer desafia a autoridade.

 

Claro, as duas maneiras radicalmente diferentes de olhar a vida não são exclusivas dos Estados Unidos. Em algum nível, são universais. Mas parecem muito mais politicamente relevantes nos Estados Unidos do que em outros locais - em países onde, por exemplo, o sistema parlamentar torna necessário que partidos com perspectivas existenciais muito diferentes se aliem em coalizões políticas.

 

Nos Estados Unidos, a política abarca valores culturais e sociais que existem fora da política. Em que outro país questões como aborto e pena capital poderiam criar tamanho furor e agitação sempre que são contestadas? A qualidade "tudo ou nada" da política americana é que faz os americanos acompanharem as campanhas presidenciais como fanatismo de torcedores de futebol. E é também a razão pela qual tantos americanos desistiram completamente da política.

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