Duarte deixa o São Pedro

Maestro alega não querer ser "um títere" nas mãos de nova OS

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2012 | 03h09

Divergências com a direção da organização social responsável pela gestão do Teatro São Pedro levaram o maestro Roberto Duarte a pedir demissão, na tarde de segunda, do posto de diretor artístico. No cargo desde o início de 2010, ele afirmou ontem que não aceitou "a remoção de quaisquer poderes de decisão, quanto ao repertório, daqueles que são os reais profissionais da área, isto é, o diretor artístico e o regente titular". Os maestros Julio Medaglia e Luis Gustavo Petri estão cotados para o cargo deixado vago por Duarte.

Até 2011, a gestão do Teatro São Pedro pertencia à APAA (Associação Paulista de Amigos da Arte), mas, em 2012, passou a pertencer ao Instituto Pensarte, que criou um conselho artístico para ajudar a montar a temporada do teatro e sua orquestra (Orthesp). "Nossa participação, minha e do regente titular Emiliano Patarra, natural e obrigatória, neste colegiado foi minimizada ao nos ser concedida, a mim e ao Maestro Patarra, regente titular, apenas voz em suas reuniões. O voto, entretanto, nos foi negado. Ainda assim, havia de nossa parte bastante otimismo na esperança e no desejo de poder realizar mais, agora com a ajuda de um colegiado", diz Duarte.

No entanto, na primeira reunião do conselho, continua o maestro, "críticas exacerbadas" foram feitas ao seu trabalho. Nos últimos meses, o repertório escolhido por Duarte tem sido alvo de questionamentos, em especial pela presença de óperas como O Guarani, de Carlos Gomes, consideradas "grandes demais", nas palavras de um conselheiro, para o palco do São Pedro. "A temporada 2012, que já estava elaborada desde fins de 2011, foi avaliada pelo novo conselho e considerada acima das possibilidades financeiras. Realizadas as modificações necessárias, apresentamos no dia 6 de março uma nova temporada. E houve novo questionamento, agora não na parte financeira, mas em relação à parte técnica. Finalmente, o conselho decidiu mudar não só um dos títulos, mas também o autor, com alegações técnicas com as quais eu absolutamente não concordo", diz. "Foram atitudes pouco elegantes, desrespeitosas e não dignas em relação a mim como profissional e ao que tenho produzido até hoje no Brasil e no exterior."

A temporada ainda não havia sido anunciada oficialmente, mas o Estado apurou que havia títulos como Il Trovatore, de Verdi, e um pequeno festival dedicado a Carlos Gomes, com óperas como O Guarani, já levada ao palco no ano passado, e Lo Schiavo - Duarte é um dos principais especialistas na obra do compositor. Com a saída do maestro, devem ser encenadas As Bodas de Fígaro, de Mozart, e O Elixir do Amor, de Donizetti. O Instituto Pensarte não confirma os valores, mas a temporada terá um orçamento de R$ 1,5 milhão e será completada por concertos e recitais. O maestro Emiliano Patarra continua a ocupar o posto de regente titular da orquestra do São Pedro - e , segundo fonte ligada ao teatro, maestros como Julio Medaglia e Luis Gustavo Petri estão entre os nomes considerados para o posto deixado por Duarte.

Desde o começo do ano, o Instituto Pensarte é responsável pela gestão, além do São Pedro, da Orquestra Jazz Sinfônica, da Banda Sinfônica, do Centro Cultural Aúthos Pagano, do programa "Ópera Curta" e o Sistema Paulista de Música. Em seu site, não há informações sobre os membros que compõem o conselho artístico-administrativo do São Pedro.

Em nota oficial, a Secretaria de Estado da Cultura defende a criação do conselho "e de um organograma para o teatro, que não existiam anteriormente". "O conselho tem se reunido com o diretor-geral do São Pedro, Paulo Esper, para definir um perfil de programação e realizar adequações nas propostas feitas pela direção." O texto nega cortes de verbas para o teatro em 2012 e afirma que "a secretaria lamenta a decisão do maestro Roberto Duarte - cujo trabalho como diretor artístico da orquestra foi essencial para sua criação e seu crescimento desde 2010 - de desligar-se de seu cargo". "No momento, a orquestra segue seu trabalho sob o comando do maestro Emiliano Patarra, regente titular também desde a criação do conjunto. A direção do teatro e o conselho artístico trabalham na proposta de programação para 2012, que deve ser anunciada em breve."

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