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Drummond cartas e bilhetes

Livro resgata uma época da cultura ao tratar da amizade entre o poeta e o produtor Hermínio Bello de Carvalho

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2011 | 00h00

Decidido a se aventurar na poesia moderna, aquela que não se atrelava a regras de rimas e métrica, Hermínio Bello de Carvalho tomou a decisão que julgava a mais correta: visitar o poeta Carlos Drummond de Andrade, então, naquele período entre as décadas de 1950 e 60, um dos mais perfeitos escritores brasileiros.

Dominado o medo de se apresentar pessoalmente ao poeta, Hermínio recebeu uma curiosa tarefa de Drummond, a fim de testar sua propensão para versos livres: ler o enigmático poema Áporo, publicado por Drummond em 1945. "Sabendo-me confuso, porque era óbvia a minha total ignorância, ofereceu-me um dicionário", relembra Hermínio que, a partir daquele dia, iniciou uma troca de correspondência com o poeta, material que, consolidado, resultou no livro Áporo Itabirano: Epistolografia à Beira do Acaso, editado pela Imprensa Oficial de São Paulo e que será lançado hoje, a partir das 19 horas, no Museu da Língua Portuguesa.

São bilhetes, cartas, poemas, histórias e algumas imagens que foram trocadas por eles ao longo dos anos. O livro não tem ordem cronológica e navega ao sabor das reminiscências de Hermínio, responsável por inúmeras digressões mas todas saborosas. Ainda sobre o Áporo, ele conta que Drummond lhe passou o dicionário no qual descobriu tanto designar um inseto como um problema difícil de resolver. "Foi assim nosso encontro. Mais simples e difícil, impossível."

Curiosamente, Hermínio lembra-se bem do que não guardou na memória: não sobrou nenhum vestígio de como era o apartamento do poeta, no Rio, nenhum quadro pendurado na parede ou algum móvel que fosse diferenciado. "Talvez porque ele fosse "a casa"."

Em meio a uma profusão de documentos, manuscritos e recortes de jornal, o livro vai relatando fragmentos que, aos poucos, constroem a imagem de Drummond e sua rotina. Hermínio lembra-se, por exemplo, da época em era funcionário da Rádio MEC. Tempos difíceis, década de 1960, governo militar instaurado que inspirou diretores autoritários que, por sua vez, passaram a exigir que se assinasse o ponto no início e no fim do expediente. "Meu constrangimento era surpreender Drummond na fila, um desrespeito inadmissível que me fazia ziguezaguear pelos corredores até que ele cumprisse o ato formal e eu tomasse meu lugar na fila", escreve.

Hermínio, aliás, mantinha uma interessante relação com o poeta, próxima e, ao mesmo tempo, afastada. Ele conta que diversas vezes trocou de calçada quando vislumbrava Drummond no sentido oposto: "Resguardava-o, resguardava-me".

Por outro lado, conseguiu que o poeta participasse da vida musical carioca, chegando a registrar o raro encontro de Drummond com Cartola, em 1962, os dois sentados num sofá da Churrascaria Plataforma. Ou ainda que o escritor vencesse a timidez e a dificuldade para aparecer na televisão e participasse de um programa.

Agitador cultural, produtor, compositor e um dos nomes mais importantes e reconhecidos da MPB, Hermínio mantinha Drummond ciente de seus projetos, convidando-o sempre que possível. Como uma homenagem a Mario de Andrade, organizada com a Funarte. Com sua letra miúda e caprichada, uma linguagem polida mas acolhedora, Drummond respondia sempre, carinhoso, alimentando uma amizade que ganha mais um capítulo, com o lançamento desse livro.

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