Drauzio Varella volta ao universo das prisões em livro

Drauzio Varella tornou-se conhecido a partir de 1999, quando foi publicado "Estação Carandiru", relato seco, direto e contundente do maior presídio da América do Sul. O livro ganhou importantes prêmios literários, vendeu mais de 500 mil cópias e chegou ao cinema na adaptação de Hector Babenco. "Foi algo inesperado, fiquei atordoado com tanto reconhecimento", conta o médico oncologista, que trabalhou como voluntário na Casa de Detenção de São Paulo por treze anos. "Por isso, precisei me afastar do assunto como escritor."

AE, Agência Estado

26 de setembro de 2012 | 11h19

É o que explica o longo período entre "Estação Carandiru" e "Carcereiros", obra que chega às livrarias na segunda-feira, também editado pela Companhia das Letras - a versão para e-book já está disponível. Segunda parte de uma trilogia (a seguinte, "Prisioneiras", ainda está na fase inicial e vai mostrar seu trabalho na Penitenciária Feminina de São Paulo), "Carcereiros" relata histórias dramáticas e engraçadas dos homens encarregados de manter controlada a temperatura de uma panela de pressão sempre prestes a estourar.

Drauzio criou relações de amizade com alguns deles, como Valdemar Gonçalves, José Araújo, Mavi. "De alguns, até me tornei amigo íntimo", relata ele que, mesmo depois da desativação do Carandiru, em 2002, mantém encontros mensais, quando trocam ideias, contam novidades, revivem histórias pitorescas. Em um deles, o médico ouviu um fato tão saboroso envolvendo a mulher de um presidiário que, ao chegar em casa, resolveu escrever a respeito. "Fiquei tão empolgado com o trabalho que decidi fazer outro livro."

Isso aconteceu há dois anos e, desde então, Drauzio Varella utilizou as (poucas) horas vagas para relembrar, escrever e reescrever as histórias contidas em "Carcereiros". Como viveu em contato direto com aqueles homens, o médico consegue traçar um perfil impecável de uma função que, mal remunerada, torna inevitável o complemento de bicos como segurança de casas noturnas.

Mais: o contato direto e constante com a violência - ali, havia desde os presos que cometeram delitos leves até os condenados por assassinato e estupro - modelou o caráter dos agentes penitenciários, transformados em "especialistas" em psicologia e sociologia - com isso, desenvolvem uma espécie de radar capaz de detectar pequenos indícios e movimentações que, se não fossem previstos, culminariam em tragédias.

Drauzio relata também os dramas dos carcereiros, cujo contato com a violência acaba contaminando sua vida particular. Acontece de alguns se renderem ao alcoolismo e ao adultério, como formas de desafogar a tensão constante do trabalho. "Afinal, eles vivem uma espécie de prisão domiciliar ao contrário, pois passam o dia na penitenciária e dormem em casa à noite", justifica.

Surgem, assim, personagens fascinantes como o agente Mano Gordo, magro como uma varapau, dono de um enorme mau humor, só aliviado diante da mulher, a enérgica Ester, famosa pelo constante destempero. No livro, Drauzio relata as peripécias de Mano Gordo para evitar que Ester descobrisse seu caso com Emília, prima da própria esposa.

Ou ainda seu Romeu, funcionário intransigente e rigoroso na manutenção da ordem, daqueles que batiam a porta com força para anunciar sua presença. "Quando ele chegava, todos, presidiários e subalternos, tinham de manter a posição de sentido, só aliviada com um sinal seu", diverte-se Drauzio. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

CARCEREIROS

Autor: Drauzio Varella

Editora: Companhia das Letras (232 págs., R$ 33)

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